segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Apelidos

Os apelidos acompanham o desenvolvimento humamo durante a infância, adolescência, fase adulta e velhice. Quando se é criança, os apelidos recebidos fazem referência àquelas palavras que não sabemos falar ou falamos com dificuldades (principalmente nomes de tios e tias). Os adultos adoram sacanear as crianças que ainda não aprenderam a falar e gostam muito de vê-las repetir os "quase-isso" ou "quase-aquilo": "olha que bonitinho, já já vai estar falando". OK.

É na adolescência que os apelidos aparecem aos montes e quanto mais se reclama deles mais eles se parecem com o escolhido. Talvez seja uma forma de inserção social, de formação dos vínculos e dos grupos. Lembro, que em uma cidade onde morei e passei da infância para a adolescência, tinha um grupo de amigos que só conhecia pelo apelidos (até hoje não sei os nomes de alguns deles). Era confortável.

Crescemos (ou não) e os adultos tendem a esquecer o que se passou 10 anos antes. Os apelidos que ficam são os de infância e quando se encontra algum "ex-amigo-adolescente" e ele nos identifica pelo apelido da "turma", fingimos que o sujeito está completamente fora de suas faculdades mentais - se estamos com a namorada/esposa a tendência é pedir a ajuda do doutro Spock para utilizar o teletransporte. Mas na vida tuda passa, como cantou o grande Nelson Ned.

Há alguns meses tento adivinhar qual será o meu apelido quando na velhice. O esforço por alguma nome diferente, engraçado e com sentido é em vão. O máximo que consegui foi me "adjetivar" (vale como apelido também?) em rabugento, ao estilo Walter Matthau e Jack Lemmon.

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email:joaoalmeidaneto@gmail.com

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Crescem entre as pedras

Crescem entre as pedras pequenos musgos. Quando bate o solo sofrem ao deslizar. E assim sucessivamente. Como se o caminho não houvera começado e nem terminado. Ao encontro de originais e limpas pegadas: nasço, existo e morro.

O mais esperado é que não terminasse. Não terminasse na minha presença. Sair mais cedo e voltar no domingo seguinte vestiam as poucas esperanças que me recordo. Não sabia escolher. Não esperava acordar. Dormia pouco depois do sábado de gargalhadas. Gostava de deitar no sofá e esperar o sono - para que a cama, provisoriamente, hospedasse. Esse é o papel dela. Existir compõe ou pressupõe incerteza. Consegui perceber, já perto dos trinta, que gosto de dormir com o colchão no chão. Na infância, havia tensão: cair e não continuar. O solo sempre me atraiu. Acho que é recíproco e evidentemente não exclusivo a mim.

Quando despertava, acontecia o que era de melhor. Instantes entre o abrir dos olhos, o fim do horizonte e a volta para o sono. Bastavam segundos de leve adormecer para que eu quisesse recomeçar. A espera seguia. Enquanto se sentavam em bancos de madeira, já gastos pelo uso e pelo pouco cuidado dispensado, olhava ao redor e imaginava que caminhos seriam percorridos, interrompidos e continuados. Convenço-me facilmente dos destinos alheios. Não recomendo a prática, mas insisto que olhar e imaginar faz com que as escolhas sejam menos perturbadoras. Haviam recuos, praticamente de todos.

Assentar não constitui tarefa penosa. É preciso habilidade e sempre escutar os mais velhos, não na idade. Olhava para o solo e marcas de empurrões pareciam pequenos cortes. Costumava me machucar com mais intensidade e menos freqüência. A sensação é diferente hoje. Os cortes me incomodam, principalmente nas mãos. É com elas nos isentamos das aflições.

As paredes não me trazem alívio ou sapiência. Certa estranheza e sofrimento estão nelas. O final é trágico e o começo desolador. Alguns anos de aprendizado, e não de conhecimento, nos provaram que nem ao menos tivemos início. Não erramos ainda. A leitura nas paredes é circular. A escrita é fragmentada. Rogo que não mudem a concepção ou que se a mudarem que se destruam as mãos.

Estou sentado. Meus pés não tocam o chão. Estão apoiados sobre a madeira. Os avisos dos penitentes não me convencem. Tenho seis anos e gosto de me pentear. Mas o faço somente depois do banho em frente ao espelho. A camiseta sempre para dentro das calças. Gosto de meias brancas com sapatos pretos. Botinhas pretas. As mãos estão entrelaçadas. Hora de começar. O cântico inicial é familiar. Ouço e sou incapaz de acompanhar. Não gosto da melodia. Embora durante toda a semana que se seguirá ela não vai sair do pensamento. Há sempre música.

Não compreendo a razão; desconfio que suprime a vontade e a existência. Como estar nas nuvens em dia de sol. Gosto da cor do céu. É calma. Não me trai - anos depois comecei a andar sozinho à noite e pude compreender. Ando sozinho pela ladeira e pela subida. Parece que vou e pouco volto. Passos à frente e ao lado. Alguns rumos deram certo, ou pelo menos, deram pouco errado. Não em lembro quando aprendi a errar, mas quanto aos acertos, espero ter sabido quando os encontrei. Penso na hereditariedade dos fatos e de como o tempo é a razão da existência, ou a razão é a existência do tempo ou então a existência é a razão do tempo.

Certos comportamentos histéricos me atraem e me trazem repulsa. É visível a hora que todos se preparam para ajoelhar. Silencio e em seguida a descida das pernas e o encontro. São troncos retorcidos à espera que o primeiro e depois, todos, se ergam novamente. Houve duas ou três repetições do acontecimento.

Ficava olhando por sobre. Como sentinela. Ainda não podia repetir os gestos. Faltava-me tempo. Recolhia minhas mãos para trás. Balançava e não pensava. Revia alguns de outros domingos. Acho que se arrependiam. Era formada fila e as fileiras se esvaziavam. Os caminhos ficavam refletidos e navegava sobre eles.

A volta era lenta: trilhas deixadas ontem se responsabilizavam pela ordem. Voltava-se ao seu início. Novo cântico. Falava por fim. Esfera de graves e agudos. Acho que lia muito pouco. Os domingos não se repetem, apenas começavam.

O cadafalso

O navio partira do sul do Novo Continente para o Velho Mundo. Paradas previstas: três - uma na ponta leste da Nova Terra, uma na capital do mundo e a última, no destino. O itinerário interessava a famílias numerosas. Os desembarques e embarques eram poucos e somente alguns chilreios eram percebidos no cais. Quatro semanas após a despedida do ancoradouro, a surpresa. Todos teriam de permanecer em terra por uma semana, num hotel, com despesas pagas pela companhia marítima.

A cidade não fora escolhida por acaso. Era a única que possuía acomodações aos empertigados passageiros do Crew of the Islands - referência clara aos responsáveis pela mudança que passara cinco anos antes. O paquete fora reformado em estaleiro oriental, e, agora era possuidor de seis motores. A propulsão empregada permitia longos percursos sem a necessidade de constante abastecimento. As famílias, ao contrário dos casais, não queriam bela paisagem e tão somente, celeridade. Na cidade litorânea, os ventos voluptuosos desagradavam as vozes pálidas dos mais tímidos. Mesmo as que ofereciam seus serviços no porto - de melífluos apelos - eram confundidas com jocosos pedidos de atenção. Foi uma descida sem grandes acontecimentos, a não ser pela azáfama de um velhote ao lado de mamãe.

O decrépito foi o único a ouvir as lamentações das jovens em terra e soltou madrigais ao encontro das damas. Sua passagem pela escada ecoou favoniamente, mas seus pés me fizeram agarrar à saia de mamãe. O momento foi bastante abrupto e confesso que fiquei por sete dias com marcas da queda em minhas pernas. Porém, o alvo tecido da vestimenta que encontrei após me levantar com a ajuda de papai, nas raras vezes ele se dirigiu a mim durante a viagem, me fez adejar ao um abraço pelo quadril da progenitora. Minha boca abriu-se em um ricto interminável e com o qual conseguiria disfarçar a tênue e malevolente ira que irradiava para com os adultos nascidos homens.

O caminho até o hotel foi recheado de pequenas infrações ao meu caráter pueril. Os passageiros seguiram em diversos ônibus. A bagagem foi depois. Certa mixórdia se formou quando o chefe da tripulação começou a alocar os passageiros da primeira classe. Eles deveriam partir o mais rapidamente para o hotel, segundo soube depois, fora utilizado pelo príncipe de Gales e seus trezentos convidados durante exposição de inventos do hemisfério sul. Não houve embuste clássico na explicação por conta da forçada parada na cidade, mas vozes mais ou menos tensas gostariam que o incidente fosse provocado por algo acontecido em algum patíbulo, de entrada falsa pela cabine do comandante. Papai dissera que o navio seria dedetizado. A invocação de que uma peste de roedores estava habitando a cozinha me parecia mais plausível. Opiniões como a de que vivissecções estariam em curso dentro do porão também perdigatava nos corredores do veículo.

Minha mão estava ocupada com garatujos quando foi acolhida pelos dedos longos e de mamãe. O sinal era para que eu guardasse os desenhos e descesse do ônibus. O hotel se anunciava em vistosas bandeiras de nações as quais nunca sonhara que existira. Ao fundo do espetáculo, o mármore em sintonia com as nuvens. Era um convite ao deleite e aos olhares por todo o perímetro da construção e não só às azuis luzes e às brisas expulsas do saguão. O contraste ficava por conta do esplêndido e quase ultrajante tapete.

O caminho levava ao escuro balcão, talvez esculpido no Velho Mundo, onde três jovens esperavam pelos novos hóspedes. Elas eram lindas, louras e muito altas, e totalmente inanes aos pensamentos de uma criança. Seguramente também foram alvos do velhote que me fez cair momentos antes. Formou-se uma pequena fila com os que esperavam pelo registro e pela bonômica chave. Papai foi um dos primeiros a se registrar, graças a um pequena fraude que contara às três atrás do balcão. Pude perceber que algum coevo de papai era o gerente e por isso as belas recepcionistas foram tão felizes em lhe atender. Após as formalidades previstas em algum estatuto de boas maneiras, fomos conduzidos ao elevador.

O fabuloso meio de transporte somente subia com três pessoas. Papai foi na frente com as malas, na companhia do courrier, encarregado pelo transporte de nossa bagagem. Mamãe e eu esperamos no banco encostado na parede ornamentada com algum quadro renascentista. A cópia era bem atraente, mas sua esquálida moldura já obrigava a instalação em meus pensamentos que uma onda de modas e gracejos arquitetônicos começava a fazer parte da nossa estadia.

As almofadas eram altas. Mamãe me pegou pela cintura e me colocou sentado sobre seus joelhos. Suas palavras eram que em breve, muito breve, estaríamos acomodados em nobres instalações, afinal alguém de Gales passara por ali, e por quanto deixou sua aura prístina de sublimes fidalgos. No mesmo momento que as palavras eram ditas por mamãe, olhei ao lado e observei uma ampla sala repleta de estantes, pequenas mesas de estudos e milhares de livros. Acho que haviam livros suficientes para todos os passageiros e não somente para os que compartilhavam do real hotel.

A cena estava em seu pleno curso. Ele estava sentado em uma das cadeiras estofadas com couro tingido de verde. O velhote ingurgitou mamãe com lascívia e lúbrico desdém. Uma quase pantomima era percebida em suas duas mãos: como se uma completava-se na outra.

Minha memória se recusa a fornecer mais detalhes da perfídia ocasião. Papai estava alhures e como em mágica, apareceu ao nosso lado. Mamãe estava rubra e comentava tergiversões a respeito de seu momentâneo aspecto. Estava exangue. Papai olhou para nossos rostos e depois procurou alguma coisa na biblioteca. O velhote havia sumido e só restava o cadafalso sagrado repleto de livros e relatos já conhecidos.

Bolsos

Carregava nos bolsos as chaves de casa e duas notas. Não me lembro se a chuva chegou antes ou depois das três. Sei que me molhei. Abri o portão de alumínio e chegava à rua. A mesma que abrigava alguns poucos moleques e boas disputas.

Alguns carros interrompiam o jogo de futebol no asfalto. Com a mão espalmada, dava um tapa na lataria, perto das lanternas. Via pelo retrovisor a vontade de parar, descer e esganar o moleque. Corríamos rápido para um terreno baldio e ficávamos por ali até o sujeito se acalmar e ir embora. A maresia era própria da cidade e alguns cuidados e em outros, peculiaridades eram percebidas. No prédio da frente, algumas famílias sem pais e dois ou três jovens casais. Fachada de pastilhas brancas já manchadas de cinza. Desgaste aparente. As garagens eram no térreo: puxavam-se portas de madeira pintadas de branco e estacionava-se o carro.

Gostava das festas de aniversário. Eram três por ano. Uma mãe e três filhos. Fiz amizade. Depois o clube - de nome futurista - algo inalcançável. Duas raquetes e bolinhas amarelas faziam o jogo. Quadra de terra e um imenso salão de festas. Reformavam a quadra central. A banca de jornal e a padaria na mesma ponta da esquina. Broa de milho e álbuns de figurinhas. Não importava o tema. Tirar o fino papel e colar. Precisão para não sair da moldura destinada. Gibis. Leitura rápida e deliciosa. Começava pela última, porque eram três quadros e nenhum diálogo.

Via-se que a cidade começava mudar e nós também. A partir daquela esquina ficavam os mais perfeitos lugares para se vencer no pique - esconde. Metros antes havia uma casa. Seu dono criava setters-irlandeses. Cachorros de pelos avermelhados e muito macios. Além dos cães, haviam carrinhos de sucos e chá. Nos finais de semanas saiam dezenas deles de lá e procuravam a praia. Tudo era vendido em poucas horas. Trabalho feito. Viviam bem.

Conheci jogos de tabuleiros na casa e música de gosto duvidável. Os jogos ficavam em um grande móvel de madeira na copa e os discos na parte de baixo do aparelho de som, encostado na parede. Quando voltava para casa, no começo na noite, via um grupo com idade mais alta conversando na esquina oposta. No final do mês a casa começou a ser demolida. Um prédio seria construído no seu lugar. Os proprietários ficaram com quatro apartamentos, um andar inteiro. Troca justa.

Mudamos antes da construção ser concluída. Não voltei à rua.

Koda Palov

Koda Palov nunca foi à escola. Seus pais eram russos e judeus. Fugiram logo após a Revolução. Retornaram uma vez, no inverno. Ele cresceu entre duas estações do metrô. Brincava de mocinho e bandido. Sempre saía ferido, quase sempre sangrando. A educação foi nos escritos dos poetas e vagabundos. Da literatura e da rua. Não houve pretexto formal para que matasse seus irmãos com o gás e seus pais com a faca. Sua avó, a quem lhe devia respeito pela leitura, também não empurrou pela janela e depois desceu pelas escadas de incêndio. Pegou o metrô e parou na primeira estação. Andou e os anos se repetiam. Encontrou emprego de marceneiro, assim como seu pai.

Fazia pequenos adornos para as salas dos casais e alguns grandes porta jóias para as recordações. Lapidava a madeira e não reclamava - morava nos fundos da loja e guardava todo o dinheiro que roubava em pequenos cossacos na estante. Já eram sete dúzias. Dois ou três anos depois o dono era outro. Comprou todo o quarteirão e fez uma fonte e um jardim no centro. O que incomodava eram as inscrições em aramaico sobre uma lenda de morte e ressurreição.

Os negócios eram diversos. Todo o tipo de comércio era realizado. Cristãos vendiam vinho aos muçulmanos que mostravam habilidade na exposição dos ferreiros. Compradores somavam-se aos emprestadores e tudo começava. Alguns exigiam dinheiro para que pudesse continuar ali. Juros seriam cobrados.

Bebia água e vodca, depois. Uma para lavar e outra para limpar. O único encontro com a terra e o mar. Os cossacos não dormiam mais. Tinham que guardar o dinheiro, mas não conseguiam. Todas as dívidas foram pagas. Casou com Doris, que gostava de se esconder dentro da geladeira. Teve um filho, Jacó, algo entre Freud e Lampião.

O menino cresceu e não escondia sua raiva do mundo. Quando acordava, mexia nas mãos, batia na madeira e olhava no horizonte. Era cego apesar de enxergar muito bem seus pais em plena atividade sexual. Jurou para sua mãe que seria açougueiro. Não entendeu, quando ela disse que ia precisar novamente da faca. Ao sete anos, ganhou um quarto só seu. Criava ratos e gostava de matá-los com uma pequena guilhotina. Para construí-la teve a ajuda de Doris, mas somente quando precisou encaixar a lâmina. Depois de pronta, era juiz, carrasco e platéia. Sentia medo quando os ratos não morriam. Achava que poderia tomar uma mordida durante à noite e que nunca mais encontraria o agressor. Por isso mexia nas mãos, para ter certeza que elas estavam vivas e que ainda eram mãos.