sexta-feira, 26 de outubro de 2007

O boquirroto

A primeira coisa a ser feita era escolher o que fora publicado no dia e recortar. Imaginava o cuidado com que se escreveu e minuciosamente passava a lâmina nas extremidades exatas das colunas. As grandes fotos, que quase ocupavam toda a página, eram desprezadas quando o título tinha mais que uma linha. Houve uma exceção: quando Mario Zan morreu e uma reportagem de um quarto de página entrou no primeiro caderno. Recorte feito e recolhido. Não seria exposto.

A longa transparência dos vidros me convenciam; era preciso ocupá-las. Meu trabalho não incluía o cuidado com as vitrines, mas me sentia reconhecido quando, antes de comprar seus ingressos, os gêmeos ruivos paravam e liam todos os recortes fixados: com o dedo desciam e subiam na leitura.

Durante a estréia, toda sexta-feira, via o filme junto com a platéia. Não fisicamente. Era o único momento que olhava para a tela. Quando deveria trocar o rolo perdia algumas cenas, nenhuma importante. Há pequenas marcas no canto inferior esquerdo que ao se intensificaram denunciam a troca. Quem confortavelmente segura a mão da namorada não percebe o final nem o começo do inflamável material. No sábado, lia mais um livro. Cotovelo na mesa, mão posicionada no queixo e os olhos seguindo as palavras. Às vezes os diálogos dos espectadores subiam à cabine e eu voltava os olhos aos falantes com gestos de silencio.

Esperava até o último deixar a sala para limpar tudo. Fechava a porta de entrada. Recolhia os sacos de guloseimas, copos de refrigerante e sempre um de chá. Não lembrava mais dos efeitos do álcool e não vendia nada que o contivesse. O que me incomodava era a repetição. Depois da estréia, na cadeira da esquerda da primeira fila encontrava uma embalagem de chocolate meio amargo. Quem se sentava ali era uma senhora quase da minha idade, mas envelhecida precocemente pelos filhos. Ela sempre me desejava bom dia após comprar o ingresso e receitar, em doses homeopáticas, o que fazer depois que a vida não nos ensina mais. Escutava e fingia que seguia os ensinamentos.

Vigiava a vitrine enquanto estivesse dentro da bilheteria. Acho que eram os quinze minutos mais interessantes do dia. Compartilhava as expectativas e prometia duas horas de algum sentido para as realizações. Com os doces e os refrigerantes prontos, deixava que escolhessem e cobrava por isso. Subiam alguns degraus e se acomodavam. Ao final de três consecutivos e decrescentes estágios de luz, a leitura preenchia todos os objetos ao redor e nos fazia desabitados de futuro.