quinta-feira, 29 de novembro de 2007

No reino da Mútria

No reino da Mútria vive-se uma hora em trinta anos. Consta que o tempo tem outro batimento nas terras distantes e isoladas. O que clamava por passos ao se abrir o imenso portão de bronze, que realizava a entrada do reino, eram as ruas de pedra. Por todas as partes e sempre nelas que os mutrianos se deslocavam. No passado, elas foram construídas por ancestrais já esquecidos. Sequer mencionavam aquilo que tinham vivido para, na forma das altas montanhas, continuar o caminho idealizado pelos colonizadores. Pensava-se em chegar o mais longe da água.

Mas nas terras construiu-se a modernidade. O meio de transporte mais comum e utilizado era o táxi: belos automóveis (movidos a um tipo de combustível baratíssimo e abundante no reino) guiados por experientes condutores. O que incomodava alguns visitantes era o fato deles não escutarem seus passageiros e os levarem a lugares que não desejaram estar. Os condutores se mostravam sempre simpáticos: eram lindos e tinham sorrisos que não cabiam dentro do próprio veículo.

A atividade preferida dos mutrianos era esperar algum consistório, sempre em frente a alguma tela de plasma. Enquanto aguardavam, engoliam confeitos de chocolates aos montes. Todos importados. Não duvidavam da eficácia do que viam, mas também não acatavam suas decisões. Depois da incessantes sessões diante da tela, passava-se à quase espasmódica forma de comunicação dos mutrianos: a buzina. Os sons, depois de algum tempo convivendo entre eles, são distintos – para chamar a atenção dos outros veículos não se usa mais – o aceitável é buzinar (mesmo quem não possua veículo) para cumprimentar e tentar ser ouvido pela bela moça que passeava na rua de pedra.