sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Luz

No reino na Mútria vive-se um dia de cada vez. As frases prontas estão proibidas desde da invenção da roda e não se fala em outra coisa por lá. A rotineira rotina da humanidade humana de não perceber o futuro e deixar pra depois o que se pode fazer hoje continua fresca. Os enfeites de Natal já estão pelas avenidas e em algumas residências.

Não foge aos olhos do passante (com passos), carrantes (com carros) e nadantes (com nada) a síndrome do desperdício e da falta de tudo (principalmente nos cérebros pensantes das autoridades desautorizadas): explico: com a crônica incapacidade de gerar energia elétrica somam-se luzes de natal em enfeites. O produto dos fatores altera o resultado: cortes no fornecimento do produto invisível pela madrugada. Quase Garcia Márquez, com a diferença que lá (no reino) todos sabem antes quem são os cortadores da "madrugada".

Vale uma breve, no máximo uma nota coberta. E que as ondas do rádio mutriano expliquem a invariável conduta da "rapaziada esperta".

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Desenhista

No reino da Mútria vive o melhor desenhista com a mão esquerda não-canhoto da história universal. Sua habilidade começou a se desenvolver depois de passar treze horas bebendo vinho e comendo pizza no único boteco que freqüentava. Não saia antes das seis da manhã de lá. Esperava que o pão de queijo e o café fossem servidos pela dona do estabelecimento. Uma forma de manter os olhos abertos e a boca quase sempre fechada.

Havia sim seus infiéis companheiros de cama, mesa e banho. Não necessariamente na ordem apontada. Embora só configurou o pensamento para a conclusão anos depois, e obviamente após a lenta, segura e gradual distensão das amizades. A escolha foi coletiva embora todas as decisões fossem individuais. A sensação era de presente: como se o término fosse inimaginável ou incalculável. Sequer existia.

Certa vez quis se desfazer de tudo: das mesas, das cadeiras, da pizza, do pão de queijo e até do vinho. Passou por cinco cidades, quatro namoradas, três ressacas (aquelas que se joga tudo para fora), dois empregos e um carro. Muitos momentos. Continuava a acreditar que o tempo passava, mas alguns espaços e frações delineavam com menos intensidade aqueles instantes.