sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A ética e a moral do etc

No apartamento de quarto e sala no centro de uma grande cidade, olhavava a bailarina na televisão. Não, este não é o começo de mais uma texto sobre os dramas, as invocações, as indagações. Não tenho tempo pra mentir, só para plagiar o Drummond. Não se aborreça.

As lembranças mais distantes constuem certo alívio aos dias atuais. Na infância, de macacãozinho amarelo, com grandes bolsos na frente, sentava na beira da calçada em uma atividade extra-sala. Um descanso aos cansados mestres: de tanto tentarem ensinar, acabavam aprendendo que todos ali não queriam aprender com eles e sim com os próprios olhares e fustigações (do verbo transitivo, nós fustigáramos).

Não que o Win Wenders, em Asas do desejo, tenha me fustigado muito na primeira vez que sentei e vi o filme. Mais uma aula em sala de vídeo, alheia à preguiça dos mestres. O sono era grande, mas a procura do personagem era maior. Naquela Berlim, e poderia ser em qualquer lugar, o desencontro com seu espelho. A tênue e díficil barreira entre os homens humanos, porque o que existe – mais um plágio, agora de/para Guimarães Rosa, é o homem humano e nada mais – suas crenças, seus conhecimentos (deles mesmos e entre eles) e suas despedidas.

Tentava existir. E descordo do Eça de Queiroz: ainda há metáforas gentis, mesmo hoje, quando continuamos a nos esforçar por aniquilar a originalidade tradicional das cidades, encurralando e negligenciado as poucas e sóbrias ruínas, monumentos e maneiras das quais nos identificamos. Ainda na infância, naquela idade em que trocava sempre as mesmas sílabas, conseguia não pensar, porque não sabia o que era pensar. A única sensação era a da existência. Respirava, interagia pouco com os colegas da mesma idade, mas sempre dançava a quadrilha na festa de meio de ano.

Imagino, desde as primeiras viagens, ao andar pelas ruas, e atravessar na faixa branca pintada em tinta especial, cada história nos olhares que me cruzavam e que são gravados pelos seus portadores. Não temos a propriedade daquilo que vivemos. Somos seus cofres mágicos. Transmitimos palavras, emoções, ações e olhares para quem compartilha a existência. Paris ou Londres e suas agradáveis ruas estreitas, seus becos, seus clubes de jazz e sua segurança aparente não me convencem que nenhuma outra história possa ser dita, contada e escrita.

Sento à margem. Sempre a margem. Na faculdade, sempre ao fundo, sempre. Talvez a distância que me recordo fosse maior àqueles que me olhavam. Não visto calças jeans, embora já tenha gasto bom dinheiro em modelos no passado. Ainda gasto em livros que tenho saudade. Como o Renato Russo, tenho saudade de tudo aquilo que não vi. Tenho saudade de Camden Town, mas tenho saudade também das cidades que morei e de outras poucas que vivi. Visto um casaco azul de marinheiro: botões até em cima. Faz frio. Ando pelas ruas calçadas com pedras em forma de hexágono.

Gosto da forma, quase sempre mais que o conteúdo. A arquitetura das construções existem: são no projeto, no concreto e claro nos olhares de quem passa. Aos cegos, são as sensações que o vento, o cheiro, os esbarrões, os abraços e o andar causam. Sim Guimarães Rosa, quero também a terceira margem. Essa metáfora gentil que a vida nos representa e nos torna um pouco mais homens humanos. É ela que vejo no meu espelho. Traço pontos no caderno e depois os ligo. Como se me guiasse pela fala das palavras. Sim, neglicenciam a Clarice Lispector, em O Búfalo.

As músicas do Cure e dos Smiths vivem nos meus pensamentos. Há pessoas que nascem para fazer somente uma coisa e são geniais. É o caso. Alheio a todos os preconceitos e declarações pouco ortodoxas, respiro e escuto suas vozes e seus pedidos. Mais uma da vida: seus pedidos. Pedimos e nos pedem diariamente. Seu medo de morrer. Aquele anjo raro do Rilke bebe lentamente nos traços o vinho mais límpido e mais claro.

Lembro de poucos presentes de Natal. Sim, antes os presentes eram de Natal e aniversário. Nessa roda gigante à beira do Tâmisa, vejo os meus presentes, todos reunidos nas lembraças e naquele sorriso. Consigo perguntar. O grande gramado verde e seus brinquedos de concreto, caixa de areia, cerca de arame, vermelho, amarelo, azul. Final da tarde, entre cinco e cinco e meia. Alguma luz em um dia de inverno. Cidade de motanhas. Estar ao sol. Respondo. Água da bica, tênis de velcro, churrasco no final de semana.

Não me conveceram; nem o construtivismo, nem o funcionalismo, nem a pragmática e muito menos o materialismo. Gosto do simples. Do pequeno jardim em frente das casas. Do cuidado em dar água e ver crescer e tentar existir. Durmo muito melhor pela manhã. Não esqueço dos sonhos. As lâmpadas incandescentes escodem todas as esquizofrenias. Gosto do claro, do contraste de fato. Aquilo que tem sombra. Que escreve com tinta preta no papel em branco. Das histórias com finais felizes, mocinhas bonitas, começo, meio e fim. Tentação duvidosa dos meus gostos.

Continuo com as mesmas sensações quando ando em uma descida. A procura. A vista. O encontro. Dia de sol e frio. Condiciono a felicidade ao frio. Paris e Londres do Eça, nesse ponto, estão acertadas. Nem Claude Lévi-Strauss, nos Tristes Trópicos, foi convincente. Todas as pintoras amadoras do Tate e do Louvre estão desculpadas. Seus rostos quadrados e olhos azuis foram suficientes para minha contemplação. Sim, a estética do etc existe. Não sucumbe a qualquer palestra de universidade, aquelas com escritores famosos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Canetas e livros

Gosto de comprar canetas e livros. Dos livros, prefiro os clássicos e aqueles já com páginas gastas pelo tempo; amareladas na sua totalidade. Quando a capa está em bom estado é quase a perfeição. Leio sempre as dedicatórias feitas por outros e para outros, confissões de amizades pouco duradouras e os enfadonhos recados de presente - se forem de Natal, confesso que me realizo.

Das canetas, as suas formas e a diversidade. Sempre há algo novo, um lançamento de volta às aulas, um material que alguma agência espacial desenvolvera ou mesmo uma remodelagem de um modelo antigo. As pontas muito finas não me agradam, assim como quando têm aquela tinta que é absorvida pelo papel e não escrita no papel. Há uma grande diferença: quando a tinta é abosorvida ela borra e as palavras ficam sem precisão. Quando a tinta é "colada" no papel é um pouco mais que transitório.

Tenho feito anotações, esboços e espasmos em meus cadernos usando as minhas canetas.