quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Desconforto

Há poucas coisas que acredito. Uma delas é que a humanidade existe porque foi preciso se ocupar. Depois que inventamos a linguagem tudo ficou mais difícil: antes era só caçar, fazer uma roupas com as peles das caças e puxar a mulher mais próxima da caverna pelos cabelos. Está feita a existência humana. Os seres masculinos se preocupam em marcar território e os seres femininos se ocupam da formação social.

Mas os caminhos nem sempre são os mesmos. E muitos tijolos, muitos passos ou muito abraços depois percebemos que não há "turning point". Sempre é a construção do olhar que nos amedronta e nos acalma, ao mesmo tempo. Construção do olhar do olhado, do olhador e do “olhente”. Destes ou daqueles, o que aprendemos (talvez seja esse um sentido da vida) e o que fazemos com estes aprendizados nos torna mais ou menos entediados.

Nós (humanos) nos acostumamos com tudo, tudo mesmo. Vez ou outra, nós cansamos de uma existência e procuramos outra(s). O sentido da psicanálise (talvez a única ciência em atividade - porque depois da linguagem, vem a ciência que nos ocupamos ) e de boa parte da história do século XX é isso. Podemos nos cansar por diversos motivos, os mais comuns estão associados ao desconforto social (mais ou menos tutu no bolso, mais ou menos rugas, mais ou menos preconceitos) talvez os ermitões tenha a resposta.

Vivemos em grupos que se relacionam; mais ou menos; falso ou verdadeiramente: é essa insatisfação (às vezes rabugice) que confesso (e aí está o temor, temos que confessar para ir aos céus) que pensar dá um trabalho danado, mas dosar as palavras é sempre uma confissão a si mesmo. A quem se confesse nas artes ou pelas artes. Por isso gosto dela. Há uma sensação de eternidade, de conforto. De voltar a si mesmo e se reconfortar.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Fila de carros

Ingrid Bergman, em Stromboli, 1950Aquela fila de carros estacionados em frente ao museu foi suficiente para que um pequeno, mas barulhento, tumulto se formasse. A incidência de diversas linhas de ônibus e o prepotente coreto na bifurcação das vias acrescentavam alguma modernidade à decadente esquina. Houvera sim, uma única vez, tentativa de novo vigor na porção mais rica da cidade; entretanto em vão: partira de já escassos sexagenários que quarenta anos antes já desconversavam sobre mudanças abissais – e claro sempre chegavam e partiam em suas lambretas vermelhas. Hoje, preferem mais de três e menos de cinco rodas.

O correto e justo a dizer é que logo após a chegada de um pequeno grupo de senhores saídas da casa chá entre, entre o velho joalheiro judeu e o mais velho ainda vendedor de sapatos formou-se alguma tensão. Talvez se conhecessem desde os tempos que voltavam a casa sem os sapatos. Talvez fossem realmente amigos, que outrora dividiram boa parte das manhãs de verão. E claro sem sol.

O atraso que esperava foi maior – justamente pela reforma dos trilhos, que já se estendia por três semanas. Quando subi no bonde, toda a história da colonização se fez representada e não escrita novamente. Procuro um lugar entre um vagão e outro, não sento. Apenas uma haste de metal, para que nas freadas e nas pacientes curvas possa me apoiar. Espero e desço. Calmos os são os passos que ao meu encontro repousa seu olhar.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Setenário pós-nada

Soft Calendar for the Month of August, 1962, Claes OldenburgHá divinos prazeres, que de tão fugazes, são quase esquecíveis. Sempre é o tédio que me faz relembrar ao passado hedonista. A extensão das sensações é o que o pós-nada do fazer fica responsável e não as suas compreensões ou mesmo justificações. A parte fácil é decidir que prazer e tédio é o que se diz deles.

É impetuoso a construção dos significantes a partir do que está mais próximo – seja material ou imaterialmente. As conclusões são mais rápidas e “lógicas”. O pensar fica tão traquilo como atravessar a rua em dia de feriado sem chuva. Ainda não compreendi (talvez não consiga em milênios) se o vendedor de antiguidades da praça é de fato um comerciante de objetos ou se apenas se desfaz de seus pensamentos para se ater a outros.

Exijo um tempo de maturação. Conto em semanas, de sete em sete dias. Prefiro o exterior das grandes construções ou pelo menos seus átrios e vãos, cheios de ar. Não desejo os livros e nem a linguagem. Desejo ver, sentir e caminhar. Mas que seja sem chuva e no feriado.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A caneta, a estética e o navio


Há poucas lições no caderno. Não foi um dia que se escrevera muito. Apenas copiara as tarefas enunciadas pela professora. Embora escrevera com a mão esquerda – ainda não sabia o que ser canhoto, ainda mais gauche na vida –, usava uma mesa para destros – direitos – e num exercício contorcionista, reproduzia os ensinamentos no papel.

Os visíveis discursos em sala de aula não se restringiam ao ditado, provas ou trabalhos em grupo. Tomar água ou ir ao banheiro constituiram raros momentos de lucidez. Após o inevitável desconforto pela escolha de onde sentar, o delicado e lento pensar sobre os futuros de cada um ao lado, à frente ou mesmo à porta, se deliciando até o último minuto antes se juntar ao outros.

Nem os olhares mais indisponíveis (porque afinal, sempre existe a exuberância clara e provocativa de alguns) sugeriam (sugestionavam) virtudes futuras. As conciliações entre permancer e existir são quase improváveis. Tendo sempre a preencher os cadernos: começo na primeira; vou à última; volto à segunda; retorno à penúltima; assim, até encontrar nas páginas centrais aquilo que não deveria ser escrito.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Sem fatos


Não me deito. Fico de pé durante a noite. Na onipresente insônia dos meus vizinhos, escuto poucos passos no andar de cima. Vejo as palavras em um livro sobre o mesmo assunto. Não as leio. Tenho pressa em não dormir. Todas as sensações estão oniscientes dos meus desejos, mas poucas aventuram-se em campos secos, quase moribundos.

A quase transparência dos vidros; todo comprados em antiquários, faz com que as sensações se acalmem. É diferente observar o mundo com olhos frescos. Ao atravessar a rua, vejo todas as feições que o pescoço alcança – em segundos de caminhada, procuro insanamente algum prazer álacre. Como se alcear aqueles encontros fosse uma forma de inconsciência.

Pretendo não romper imediatamente a ilusão e não acordar o sonhador. Seus lençóis, já lavados, e estendidos a secar vão perdendo sua beleza. Não partilho as aglutinações da minha memória insolente. Ao tomar fôlego e soprar a última vela no bolo, sou um anjo raro que alheio a sua sede; sigo recreando-me com relógios de ponteiros dourados.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Divagações claras sobre assuntos obscuros ou assuntos claros sobre divagações obscuras


Há poucos filmes que me interesso. Nada de últimos lançamentos ou películas imperdíveis com a atriz/ator genial. Temo que o pouco tempo que esses filmes perdurarão na minha memória os faça esquecer imediatamente após vê-los. Não culpo o meu pouco desenvolvimento para guardar acontecimentos pouco válidos ou mesmo o cárater veloz com que as emoções surgem e desaparecem em quase duas horas em frente a uma tela.

Talvez seja a incapacidade justa e autêntica da espécie humana em não construir lembranças diante do que está disponível incontáveis vezes a uma reprise. É um exercício passivo da paciência; não é entretenimento ou mesmo diversão, precisamos contar o tempo em outras formas que não a do relógio ou do calendário. Assim, entendemos que quanto mais fazemos ou mais assistimos, mais “existimos” e a vida segue mais confortável.

Mas se poluimos nossas mentes adolescentes com divagações sobre a existência humana ficamos ancorados em um porto quase deserto; longe dos encontros e desencontros que moldam nossa caminhada, e às vezes uma corridinha leve. Chego a refletir que a retenção de informações úteis e inúteis é um completo disfarce do medo que sentimos cotidianamente. (Será que ele/ela gostou da minha roupa?).

Certo que não entrarei para a história mundial, me condiciono a entrar para a minha própria (história). E ela é eterna, pelo simples fato de não existir. Vou esperando nesse encantamento etéreo e com “dias eleitos” o sentido da vida.

terça-feira, 3 de março de 2009

Nunca andei pelo centro da cidade

Nunca andei pelo centro da cidade. Nem os estúrdios casacos, sempre necessários, trouxeram-me a certeza que o caminho mais rápido era pelas ruas daquele encontro de rio e lago. Invejo todos os pedestres que, em uma segunda-feira de sol e muito frio, se aventuram pelas estreitas passagens. Não vejo televisão em excesso. Não constumo dar esmolas e nem molhar os pés quando tomo banho. Concordo com uma outra adivinha que previu meus exagerados gostos pelas histerias alheias.

Devo ter sido esconjurado na infância e depois doses de reforço, sem a minha percepção, foram gotejadas na minha consciência. Não me lembro quando foi a última vez que fui ao cinema e fiquei até o término da sessão. Talvez sinta falta daquelas amplas e antigas salas; cheias de frisas e abarrotadas de olhares. Os preços dos ingressos valiam a fantasia. Ou pelo menos duravam mais. Afinal, dizia-se diluso todos aqueles que não optaram por morrer, apenas.

Visto-me. Refiro-me ao cachorro; como em todos os dias. Deixo a barba para depois e exagero no perfume. Penso em tomar o café da manhã. Marco a margem com o dedo e deixo um bilhete. Escrito rapidamente e pouco legível. Não quero atrasos. Odeio quem desce pelas escadas. Aceno a mão, aviso que existo. Mais cinco passos e começo a não olhar para trás.