sexta-feira, 29 de maio de 2009

Sem fatos


Não me deito. Fico de pé durante a noite. Na onipresente insônia dos meus vizinhos, escuto poucos passos no andar de cima. Vejo as palavras em um livro sobre o mesmo assunto. Não as leio. Tenho pressa em não dormir. Todas as sensações estão oniscientes dos meus desejos, mas poucas aventuram-se em campos secos, quase moribundos.

A quase transparência dos vidros; todo comprados em antiquários, faz com que as sensações se acalmem. É diferente observar o mundo com olhos frescos. Ao atravessar a rua, vejo todas as feições que o pescoço alcança – em segundos de caminhada, procuro insanamente algum prazer álacre. Como se alcear aqueles encontros fosse uma forma de inconsciência.

Pretendo não romper imediatamente a ilusão e não acordar o sonhador. Seus lençóis, já lavados, e estendidos a secar vão perdendo sua beleza. Não partilho as aglutinações da minha memória insolente. Ao tomar fôlego e soprar a última vela no bolo, sou um anjo raro que alheio a sua sede; sigo recreando-me com relógios de ponteiros dourados.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Divagações claras sobre assuntos obscuros ou assuntos claros sobre divagações obscuras


Há poucos filmes que me interesso. Nada de últimos lançamentos ou películas imperdíveis com a atriz/ator genial. Temo que o pouco tempo que esses filmes perdurarão na minha memória os faça esquecer imediatamente após vê-los. Não culpo o meu pouco desenvolvimento para guardar acontecimentos pouco válidos ou mesmo o cárater veloz com que as emoções surgem e desaparecem em quase duas horas em frente a uma tela.

Talvez seja a incapacidade justa e autêntica da espécie humana em não construir lembranças diante do que está disponível incontáveis vezes a uma reprise. É um exercício passivo da paciência; não é entretenimento ou mesmo diversão, precisamos contar o tempo em outras formas que não a do relógio ou do calendário. Assim, entendemos que quanto mais fazemos ou mais assistimos, mais “existimos” e a vida segue mais confortável.

Mas se poluimos nossas mentes adolescentes com divagações sobre a existência humana ficamos ancorados em um porto quase deserto; longe dos encontros e desencontros que moldam nossa caminhada, e às vezes uma corridinha leve. Chego a refletir que a retenção de informações úteis e inúteis é um completo disfarce do medo que sentimos cotidianamente. (Será que ele/ela gostou da minha roupa?).

Certo que não entrarei para a história mundial, me condiciono a entrar para a minha própria (história). E ela é eterna, pelo simples fato de não existir. Vou esperando nesse encantamento etéreo e com “dias eleitos” o sentido da vida.