sexta-feira, 19 de junho de 2009

Setenário pós-nada

Soft Calendar for the Month of August, 1962, Claes OldenburgHá divinos prazeres, que de tão fugazes, são quase esquecíveis. Sempre é o tédio que me faz relembrar ao passado hedonista. A extensão das sensações é o que o pós-nada do fazer fica responsável e não as suas compreensões ou mesmo justificações. A parte fácil é decidir que prazer e tédio é o que se diz deles.

É impetuoso a construção dos significantes a partir do que está mais próximo – seja material ou imaterialmente. As conclusões são mais rápidas e “lógicas”. O pensar fica tão traquilo como atravessar a rua em dia de feriado sem chuva. Ainda não compreendi (talvez não consiga em milênios) se o vendedor de antiguidades da praça é de fato um comerciante de objetos ou se apenas se desfaz de seus pensamentos para se ater a outros.

Exijo um tempo de maturação. Conto em semanas, de sete em sete dias. Prefiro o exterior das grandes construções ou pelo menos seus átrios e vãos, cheios de ar. Não desejo os livros e nem a linguagem. Desejo ver, sentir e caminhar. Mas que seja sem chuva e no feriado.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A caneta, a estética e o navio


Há poucas lições no caderno. Não foi um dia que se escrevera muito. Apenas copiara as tarefas enunciadas pela professora. Embora escrevera com a mão esquerda – ainda não sabia o que ser canhoto, ainda mais gauche na vida –, usava uma mesa para destros – direitos – e num exercício contorcionista, reproduzia os ensinamentos no papel.

Os visíveis discursos em sala de aula não se restringiam ao ditado, provas ou trabalhos em grupo. Tomar água ou ir ao banheiro constituiram raros momentos de lucidez. Após o inevitável desconforto pela escolha de onde sentar, o delicado e lento pensar sobre os futuros de cada um ao lado, à frente ou mesmo à porta, se deliciando até o último minuto antes se juntar ao outros.

Nem os olhares mais indisponíveis (porque afinal, sempre existe a exuberância clara e provocativa de alguns) sugeriam (sugestionavam) virtudes futuras. As conciliações entre permancer e existir são quase improváveis. Tendo sempre a preencher os cadernos: começo na primeira; vou à última; volto à segunda; retorno à penúltima; assim, até encontrar nas páginas centrais aquilo que não deveria ser escrito.