sábado, 20 de novembro de 2010

Onofre

Sem Nome, Luís Qual,foto de Jan Bengtsson, coleção particular, 2000, Grés, 36x60cmOnofre tinha uma lanterna. Numa sexta-feira, a trocou por uma guitarra. Embora sua surdez não o incomodasse a ouvir; as cordas poderiam trazer ou enviar algo que seus olhos já esperavam. Naquela mesma sexta-feira, Onofre foi a sua última aula no maternal. Sentou-se na primeira fila e portou-se de maneira sutil e controversa. Afinal ele cosrtumava se entreter com pequenos aviões de papel e os doces sorrisos dos mais velhos.

Embora ele soubesse que não mais ali voltaria (mesmo quando enricou e comprou todo o terreno e os prédios que nele eram contidos) sentiu certo temor em querer voltar. À sua espécie de gente (mais tarde, muitos outros o chamariam assim) era permitido quase todas as mudanças e diálogos. Aos que restaram sobre o chão (quando da soneca após o almoço) foram erguidos bustos e evidentemente sem sorriso algum em suas expressões.

Sim, a velocidade era parte de sua espécie. Lucrava mais em comprando mais e vendendo rápido. Sem pensamentos insanos em relação às coisas que pouco importavam aos outros e que lhe fazia, quase sempre, indagar seu gato em proposições sérias e pouco plausíveis. Sim, era a janela em que o gato repousara que Onofre meditava e mantinha seu bigode adornado.

domingo, 31 de outubro de 2010

A mulher

Fragmentos do discurso de Betty Friedan proferido em 1969

A mulher, mesmo sabendo que elas são demasiado visíveis como objetos sexuais neste país, são pessoas invisíveis. Como o negro era um homem invisível, assim as mulheres são pessoas inivisíveis na América de hoje: mulheres que participam das decisões no centro do governo, da política, da igreja – que não ficam só cozinhando a sopa da paróquia, mas pregam sermões; que não ficam apenas conferindo o código postal e os endereços nos envelopes, mas que tomam decisões políticas; que não fazem apenas o trabalho doméstico da indústria mas propõem algumas decisões executivas. Mulheres, sobretudo, que dizem o que suas próprias vidas e personalidades serão, e não mais apenas ouvem ou permitem que especialistas masculinos definam o que é “feminino” e o que não é.

(...)

As vozes das mulheres estão sendo finalmente ouvidas, em alto e bom som, dizendo que o caminho passa pela questão do aborto tanto no sentimento básico da moralidade como em seu novo sentido político, como parte da revolução pela igualdade sexual, ainda por terminar.

Nessa confrontação, estamos construindo um marco nessa revolução maravilhosa que teve o seu início antes de qualquer uma de nós ter nascido e que ainda tem longo caminho a percorrer. Das pioneiras dessa luta, de Mary Wolestonecraft à Margaret Sanger, recebemos a consciência que nos trouxe até aqui, vindo das mais diferentes posições, para mudarmos os próprios termos do debate sobre o aborto para afirmar os direitos da mulher em fazer suas escolhas, definir as novas maneiras de viver, por nós mesmas, levando a mulher adiante, até a conquista da dignidade humana. Hoje, movemos a História adiante.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Enoque

Mark Rothko, Untitled, 1949, Oil on canvas, 207 x 167,6 cm, Guggenheim Museum. New York CityEnoque era surdo. Não gostava de coelhos e nem de piratas. Tinha certeza que todos eles se encontravam depois do expediente para beber alguma coisa e mentir bastante. Fazia quase sempre as mesmas perguntas e claro, não as respondia. Ele mesmo ainda não escolhera entre os licores e as palavras. Não os distinguia: sobre os líquidos sobrevivia entre e com eles, sem distinção de cores ou texturas. Sobre as letras; as colecionava, mas não as decorava.

Enoque era cego. Gostava de colchões e de pelos. Incomodava-se pelos fatos repletos de restos da tarde anterior e com as vozes roucas das fumantes. Era certo que descer pelas escadas o levaria ao começo e à porta. Nada de saída, claro, e como se houvesse tido algum sorriso, voltava-se ao trivial: derreter o caramelo e refazer seus fios dourados. Era precavido e comprava tudo em duplicata. Seu pessimismo não o permitia de usar o segundo par de sapatos. Ficariam no armário, para em caso de guerra, fossem trocados por alguma coisa que se pudesse calçar.

Enoque era mudo, quase analfabeto. Ao menos tinha um pequeno globo em sua estante do banheiro. Certa vez, uma das fumantes, o presenteara e em repetida freqüência o iluminara: vá sempre ao banheiro, mas não o deixe no meio do caminho; nem do seu e nem do dela. Seu trabalho era muito simples. Vendia quebra-cabeças em uma loja de presentes sinceros e objetivos. Sentava-se à escada: nem em baixo e nem em cima. Gostava de correr, à noite, quando o asfalto continha alguma luz. Venceu certa vez seu avô na partida de futebol de botão. Aos domingos de manhã, entre um pirata de caramelo e outro, fazia ao espelho uma pergunta simples: o que é a vida?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

De voz amolecida e quase rouca

Edward Hopper, Morning Sun, 1952, Columbus Museum of Art, Ohio












Comprei uns óculos novos,
óculos dos mais excelentes:
não têm aros, não têm asas,
não têm grau e não têm lentes...

João Guimarães Rosa em “Tutaméia”

De voz amolecida e quase rouca, fechei os olhos. A ressaca que da janela via era a mesma que me acompanhava durante todos os entardeceres. Suco de limão, muito açúcar e o único dejeso controlável: dormir.

As noites eram dedicadas às comiseracões. Os papéis de parede, de presente e outros que não me prestara. Todos reunidos sob o colchão, entre o estrado e o lençol. Recolhia-os nas noites de natal. Enquanto e dentro de sorrisos e abraços, eles caiam e à deriva entre o chão e a próxima lata de lixo; foram acolhidos em grande.

No trajeto da volta evito contato no elevador. São todos estampados de vermelho e repletos de sono. Costumava incitar certas oblações. Antes de conhecer seus resultados já havia me arrependido. Como se delicadamente cortasse os caules das flores que comprava todos os dias.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Exílio alheio

Haycutting, 1910 Natalia Goncharova“É freqüente o desconhecer-me – o que sucede com freqüência aos que se conhecem. Assisto a mim nos vários disfarces com que sou vivo. Possuo de quanto muda o que é sempre o mesmo, de quanto se faz tudo o que é nada.”

Fernando Pessoa em “Livro do desassossego”, página 363.

Se o traje estava incompleto; nem ao menos à porta chegava. As brasas que transferiam calor ao pesado ferro de passar eram as mesmas que providenciavam o aquecimento nos sempre frios e longos dias. As noites se estendiam rapidamente: como se ocupassem somente metade de todos os projetos e convicções – no nosso caso, dos passos até o jardim.

Era aquela coleção de caixas vazias, mas acabadas e bem ornamentadas que saía os mesmos presentes às mesmas datas. Anualmente podia-se ver, ou como gostava de dizer aos taxistas: há coisas perdidas, que se achadas não deixam saudade, de modo que devo gastar-me por inteiro hoje e dormir por mais outro ano. E todos eles se gargalhavam.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Quando escolhi a roupa que vestiria no dia da minha morte

Quando escolhi a roupa que vestiria no dia da minha morte, sabia que pouco mais poderia fazer; por mim e pela estrela mais próxima. Já havia me esquecido da infância que não tive e dos presentes de Natal que não ganhara. O dia de quase feriado dos doces distribuídos aos pequenos era a única lembrança por apagar.

Seria meu trabalho até quando me despediria daqueles que não conhecera: apagar as lembranças e tratar de não viver mais nenhuma delas. Tarefa quase sempre guiada pela madrugada, pelo pouco vento da praia e por uma infinidade de garrafas e cigarros.

Subi poucas escadas. Não contava os degraus, mas sempre me (a)pareciam muitos deles. Contentava-me em não olhar para baixo e não sentir medo de altura. Uma vez, cai na grama por conta do medo. Tive a sensação que deveria contar tudo aquilo que inventei.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A rua da paragem de lá

Peter Blake On the Balcony, 1955-7Descobre o fundo nunca descoberto
As areias finas ali de prata fina;
Torres altas se vêm, no campo aberto,
De transparente massa cristalina;
Quanto se chegam mais os olhos perto,
Tanto menos a vista determina
Se é cristal o que vê, se diamante,
Que assi se mostra claro e radiante.

Luís de Camões em “Os Lusíadas”




Três cordas tem a guitarra,
Uma d´ouro, outra de prata...
À terceira, que é de ferro,
Todos lhe chamam ingrata.

Antero de Quental em “Primaveras românticas”


Na rua não se impregna o cheiro de nada. Os contrários também são válidos. Não aquela simples inversão apreendida durante o início da adolescência, mas sim uma outra, ensinada em poucas palavras e quase nenhum silêncio.

As referências são repetidas e pouco aproveitadas. Talvez assistidas. Como no cinema: aquele beijo ensaiado desde os créditos iniciais e que se perpetuará somente na última cena. Vejo e não observo. Por isso gosto tanto do cinema e evidentemente da maneira de fazer cinema. Se a observação me contagiasse, talvez seria mais prático e mais rápido participar de um safári.

Faço continência às sensações. E nada mais importa. Sou ocupado pelo vento e pelas pequenas conversas que não compreendo.