sexta-feira, 16 de abril de 2010

Exílio alheio

Haycutting, 1910 Natalia Goncharova“É freqüente o desconhecer-me – o que sucede com freqüência aos que se conhecem. Assisto a mim nos vários disfarces com que sou vivo. Possuo de quanto muda o que é sempre o mesmo, de quanto se faz tudo o que é nada.”

Fernando Pessoa em “Livro do desassossego”, página 363.

Se o traje estava incompleto; nem ao menos à porta chegava. As brasas que transferiam calor ao pesado ferro de passar eram as mesmas que providenciavam o aquecimento nos sempre frios e longos dias. As noites se estendiam rapidamente: como se ocupassem somente metade de todos os projetos e convicções – no nosso caso, dos passos até o jardim.

Era aquela coleção de caixas vazias, mas acabadas e bem ornamentadas que saía os mesmos presentes às mesmas datas. Anualmente podia-se ver, ou como gostava de dizer aos taxistas: há coisas perdidas, que se achadas não deixam saudade, de modo que devo gastar-me por inteiro hoje e dormir por mais outro ano. E todos eles se gargalhavam.