sexta-feira, 13 de agosto de 2010

De voz amolecida e quase rouca

Edward Hopper, Morning Sun, 1952, Columbus Museum of Art, Ohio












Comprei uns óculos novos,
óculos dos mais excelentes:
não têm aros, não têm asas,
não têm grau e não têm lentes...

João Guimarães Rosa em “Tutaméia”

De voz amolecida e quase rouca, fechei os olhos. A ressaca que da janela via era a mesma que me acompanhava durante todos os entardeceres. Suco de limão, muito açúcar e o único dejeso controlável: dormir.

As noites eram dedicadas às comiseracões. Os papéis de parede, de presente e outros que não me prestara. Todos reunidos sob o colchão, entre o estrado e o lençol. Recolhia-os nas noites de natal. Enquanto e dentro de sorrisos e abraços, eles caiam e à deriva entre o chão e a próxima lata de lixo; foram acolhidos em grande.

No trajeto da volta evito contato no elevador. São todos estampados de vermelho e repletos de sono. Costumava incitar certas oblações. Antes de conhecer seus resultados já havia me arrependido. Como se delicadamente cortasse os caules das flores que comprava todos os dias.