domingo, 31 de outubro de 2010

A mulher

Fragmentos do discurso de Betty Friedan proferido em 1969

A mulher, mesmo sabendo que elas são demasiado visíveis como objetos sexuais neste país, são pessoas invisíveis. Como o negro era um homem invisível, assim as mulheres são pessoas inivisíveis na América de hoje: mulheres que participam das decisões no centro do governo, da política, da igreja – que não ficam só cozinhando a sopa da paróquia, mas pregam sermões; que não ficam apenas conferindo o código postal e os endereços nos envelopes, mas que tomam decisões políticas; que não fazem apenas o trabalho doméstico da indústria mas propõem algumas decisões executivas. Mulheres, sobretudo, que dizem o que suas próprias vidas e personalidades serão, e não mais apenas ouvem ou permitem que especialistas masculinos definam o que é “feminino” e o que não é.

(...)

As vozes das mulheres estão sendo finalmente ouvidas, em alto e bom som, dizendo que o caminho passa pela questão do aborto tanto no sentimento básico da moralidade como em seu novo sentido político, como parte da revolução pela igualdade sexual, ainda por terminar.

Nessa confrontação, estamos construindo um marco nessa revolução maravilhosa que teve o seu início antes de qualquer uma de nós ter nascido e que ainda tem longo caminho a percorrer. Das pioneiras dessa luta, de Mary Wolestonecraft à Margaret Sanger, recebemos a consciência que nos trouxe até aqui, vindo das mais diferentes posições, para mudarmos os próprios termos do debate sobre o aborto para afirmar os direitos da mulher em fazer suas escolhas, definir as novas maneiras de viver, por nós mesmas, levando a mulher adiante, até a conquista da dignidade humana. Hoje, movemos a História adiante.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Enoque

Mark Rothko, Untitled, 1949, Oil on canvas, 207 x 167,6 cm, Guggenheim Museum. New York CityEnoque era surdo. Não gostava de coelhos e nem de piratas. Tinha certeza que todos eles se encontravam depois do expediente para beber alguma coisa e mentir bastante. Fazia quase sempre as mesmas perguntas e claro, não as respondia. Ele mesmo ainda não escolhera entre os licores e as palavras. Não os distinguia: sobre os líquidos sobrevivia entre e com eles, sem distinção de cores ou texturas. Sobre as letras; as colecionava, mas não as decorava.

Enoque era cego. Gostava de colchões e de pelos. Incomodava-se pelos fatos repletos de restos da tarde anterior e com as vozes roucas das fumantes. Era certo que descer pelas escadas o levaria ao começo e à porta. Nada de saída, claro, e como se houvesse tido algum sorriso, voltava-se ao trivial: derreter o caramelo e refazer seus fios dourados. Era precavido e comprava tudo em duplicata. Seu pessimismo não o permitia de usar o segundo par de sapatos. Ficariam no armário, para em caso de guerra, fossem trocados por alguma coisa que se pudesse calçar.

Enoque era mudo, quase analfabeto. Ao menos tinha um pequeno globo em sua estante do banheiro. Certa vez, uma das fumantes, o presenteara e em repetida freqüência o iluminara: vá sempre ao banheiro, mas não o deixe no meio do caminho; nem do seu e nem do dela. Seu trabalho era muito simples. Vendia quebra-cabeças em uma loja de presentes sinceros e objetivos. Sentava-se à escada: nem em baixo e nem em cima. Gostava de correr, à noite, quando o asfalto continha alguma luz. Venceu certa vez seu avô na partida de futebol de botão. Aos domingos de manhã, entre um pirata de caramelo e outro, fazia ao espelho uma pergunta simples: o que é a vida?