sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Jazz de extremidades

Sonia Delaunay-Terk Les Robes Poèmes, 1969Dois retângulos de luzes eram projetadas no palco. Os comprimentos eram cinco vezes maiores que as larguras. Duas esbeltas janelas de luz. Chão de madeira e pintado de branco. Duas vezes por ano era feita a manutenção: outra camada de tinta era adicionada. Bom começo de luz.

Aos que entravam em cena, eram permitidas indumentárias brancas. Certo contraste entre as peles e os que reagiam da platéia com sorrisos e nenhum aceno. Caminhavam entre uma mudança e outra. Saíam e entravam pelas laterais e claro, eram adormecidos pelas longas madeixas negras.

Mãos espalmadas e muito barulho. Contavam-se com dedos alheios quantas vezes foram e voltaram em uma singela apreciação dos movimentos. Queria-se ir em tons mais amenos e delicados. Fazia-se ao acaso. Era isso. Ao acaso que escolhera seu último vestido. E com ele dançava em cores.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A margarida

Charles Demuth Zinnias 1926Das margaridas colhidas pela manhã, ela cortava as folhas, que ao longo do caule causavam certa impressão de desconforto ao contrastar com as pétalas brancas e esguias. Do centro, amarelo, viam-se estrelas. Quase abandonadas, naquele que na descrição de seu avô, eram com as pontas dos dedos esmiuçadas e perdidas em qualquer vento mais à leste.

Sim, havia bem-me-quer e mal-me-quer. Mas nada muito demorado (diferente das madrugadas na varanda). Apenas tempo bastante para que os solavancos que as estrada de terra proporcionava chegassem ao fim. Quando adulta, já com o caminho asfaltado e as crianças no banco de trás, pôde ver que elas ainda cresciam entre as cercas.

Sua bicicleta tinha uma cesta na frente. Gostava de pedalar. Sobe e desce; avança e recua; dança e ouve a canção. Sempre em zigue-e-zague. Vê-se que sua direção é mesma. Ao encontro daquilo que pouco lhe é familiar, apesar dos avisos. E quando percebe que seus pés seguem sem pensar, toma o rumo das margaridas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O pirata

Nem casa e nem compra uma bicicleta. A leitura ainda iniciada na banca de revistas improvisada – nem ao menos era em uma esquina – justamente durante o horário de almoço respondia às questões que não foram feitas.

A dupla sorridente de vendedoras imprimia verdade para elas mesmas e muitas letras ilegíveis no final da página. Sim, foi, era, é, será preciso compreender o que o mimiógrafo esquecera de grafar.Talvez tenha sido a falta de álcool e aquelas improvisações com as canetas grossas e pontudas que de cores preta ou azul respondiam por mais da metade dos sentimentos próprios ou alheios.

Talvez tenha sido o excesso de álcool que as fez borrar os convites de casamento nunca entregues, mas todos devidamente envelopados. Ou então, quebram-se os copos, os alvos e aquela moeda presa ao bolso.Rindo. Sem menção ao que gostavam, amavam, viviam; era quando se olhavam que eu podia ler seus gestos. Acho que era isso: ventavam uma para a outra. Sem que seus cabelos, agora já brancos, pudessem se mexer iam dizendo ao que vai ficar. Sim. Letras e formas desenhadas e não quase nunca escritas.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Tomate

Willem Kooning Untitled VIIQuando encontrei onde se vendia um bom molho de tomates era hora de partir. Poucos minutos em água fervente pareciam décadas para quem havia acendido o fogo e enchido a grande panela com água. O utensílio fora herança do único parente conhecido e assim mesmo pouco viveu para o molho.

Quase eslava, a feição lembrava o perfil daquela atriz de nariz adunco e voz rouca que atuara em diversos filmes de gosto refinado e sempre com falas em espanhol. A alguns, ela era a companhia perfeita (na mesma medida daquela ao ar livre em pleno sábado à tarde e com sol); para os outros, era um belo livro de nome “angústia” ou “insônia”. Um livro.

Com a cadeira que sentávamos juntos; de tal maneira que os dois ficavam com os pés bem distantes do chão, íamos calmamente retirando parte da areia dos olhos: acúmulo de algumas noites sentindo os joelhos e respirando o mar.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O garfo

Larionov, Mikhail,Le Boeuf-Rayonnisme,1910-Oil on canvas-85 x 67 cm-Private collectionEra tudo sobre estar sentado ou em pé. Se olhava por entre os dentes do garfo, as múltiplas visões; quase encenadas, já seriam suficientemente satisfatórias. Tratava-se de uma recusa às flores e às folhas. Aquelas, que as cores e o intenso sol de outono foram capazes de transformar o final da tarde em começo de noite.

Ninguém se sentara à sua frente. Em vez disso, pedira à jovem ao lado para posar, na cadeira que ocupava, em uma singela fotografia. Tempos digitais e claro, a imagem jamais seria impressa em um papel. Sentia que seus pedidos eram incentivados à medida que sua voz era docemente aceita pelos ouvidos alheios.

Daquela pequena sobremesa recheada de amoras, vencida em poucas mastigadas, usou a faca e uma pequena colher. Quando as previsões meteorológicas erravam por pouco a temperatura do dia; pedia um chá de hortelã e adicionava todo o açúcar disponível – e o garfo teria algum uso.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Ao respirar

Erik Andriesse, 1980, Watercolor, pencil on paper, Aprox. 30 x 25 cm, Private CollectionAo respirar antes de falar, sua única lembraça era a farofa de ovos que comera do dia anterior. O banquete, servido em homenagem do feitos de sua tia-avó, era regiamente devorado às vinte horas daquela sexta-feira de Carnaval. Em outros tempos, seria apenas mais um apontamento sobre a velha cadeira pintada de amarelo.

Antes da sobremesa, o discurso. Os agradecimentos e claro, muitos esquecidos – sempre os essenciais e mais importantes - , afinal, os nomes dos parentes quase não fariam diferença quando suas lápides, já gastas pelo vento e chuva, fossem transformadas em delicados e bem cortados adornos para banheiras.

Bastante foram dois rolos de papel higiênico para a festa daquele ano. Talvez também tenham sido usados mais de dois sabonetes, daqueles escuros em embalagem rebuscada. Na saída, a fila de cachorros na espera por seus donos e mestres. Era noite, e os mais bem vestidos ainda teriam a quem dizer obrigado.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A coleção

Miltom Avery - Green Sea, 1958 - Oil on canvas - 18 x 24 in. - Private collection. "Tudo está pronto e nossas coragens também".Quarto ato. Rei Henrique, em O Rei Henrique V.

Da coleção de bandeiras e selos – e é preciso citá-los, porque afinal, um textos sem clichês não é um texto, e sim a mais inútil escritura – perdia a maior parte do seu tempo. Sim, os dias passavam e para que as suas cartas fossem enviadas a tempo era preciso um pouco mais que sorte ou habilidade em fechar envelopes.

Considerava tímida e recente descoberta. Faria daquilo sua receita universal de felicidade. Aos poucos que o conheciam,disse-lhes todas as vezes o mesmo cármico mantra. Sua bota, suas meias e as gastas calças pretas sem bolsos. Se suas mãos escorregassem, seriam catapultadas ao ao mais longíquo dos pensamentos.

Comia peixe no café da manhã e depois nadava. Acenos e caminhadas pela calçada. Seu cachorro sempre o lambia. Ao receber visitas para a Páscoa, recusou-se sentar à mesa. A bela refeição trouxe ao pensamento a devida saciedade. Prefiriu cuidar da louça e deixou a sobremesa para o jantar.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A garota que gostava de sapos

Charles Demuth - Buildings, Lancaster - 1930 - Oil on board - 24 x 20 in (61 x 50.8 cm) - Whitney Museum of American Art, New YorkA garota gostava de sapos. À noite, antes de dormir se despedia do sol com uma xícara de chá de hortelã. Folhas que elas e sua avó materna cultivavam em uma pequena caixa de metal. Seu colchão d´água tinha algumas bolhas de ar. Era com elas, quase adormecendo, que via seus cabelos refletindo.

Sentia no chão todos os aromas que a cera, passada quase todos os domingos, provocava. Fazia pensar no seu trabalho: era a única vendedora de malas da grande loja de departamentos. Orgulho em ser por onze vezes seguidas recordista de vendas da rede. Usava saias, e apenas elas. As calças, dizia, eram para quem ainda sonhava.

Pelas manhãs, via sempre o mesmo episódio do Zorro, o antigo. Suas velhas fitas quase sabiam onde seus sorrisos e suas sobrancelhas estavam. Trinta minutos depois da espada marcar mais uma vez suas saias; estava pronta para seus zíperes, cadeados e seus botões.