quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A margarida

Charles Demuth Zinnias 1926Das margaridas colhidas pela manhã, ela cortava as folhas, que ao longo do caule causavam certa impressão de desconforto ao contrastar com as pétalas brancas e esguias. Do centro, amarelo, viam-se estrelas. Quase abandonadas, naquele que na descrição de seu avô, eram com as pontas dos dedos esmiuçadas e perdidas em qualquer vento mais à leste.

Sim, havia bem-me-quer e mal-me-quer. Mas nada muito demorado (diferente das madrugadas na varanda). Apenas tempo bastante para que os solavancos que as estrada de terra proporcionava chegassem ao fim. Quando adulta, já com o caminho asfaltado e as crianças no banco de trás, pôde ver que elas ainda cresciam entre as cercas.

Sua bicicleta tinha uma cesta na frente. Gostava de pedalar. Sobe e desce; avança e recua; dança e ouve a canção. Sempre em zigue-e-zague. Vê-se que sua direção é mesma. Ao encontro daquilo que pouco lhe é familiar, apesar dos avisos. E quando percebe que seus pés seguem sem pensar, toma o rumo das margaridas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O pirata

Nem casa e nem compra uma bicicleta. A leitura ainda iniciada na banca de revistas improvisada – nem ao menos era em uma esquina – justamente durante o horário de almoço respondia às questões que não foram feitas.

A dupla sorridente de vendedoras imprimia verdade para elas mesmas e muitas letras ilegíveis no final da página. Sim, foi, era, é, será preciso compreender o que o mimiógrafo esquecera de grafar.Talvez tenha sido a falta de álcool e aquelas improvisações com as canetas grossas e pontudas que de cores preta ou azul respondiam por mais da metade dos sentimentos próprios ou alheios.

Talvez tenha sido o excesso de álcool que as fez borrar os convites de casamento nunca entregues, mas todos devidamente envelopados. Ou então, quebram-se os copos, os alvos e aquela moeda presa ao bolso.Rindo. Sem menção ao que gostavam, amavam, viviam; era quando se olhavam que eu podia ler seus gestos. Acho que era isso: ventavam uma para a outra. Sem que seus cabelos, agora já brancos, pudessem se mexer iam dizendo ao que vai ficar. Sim. Letras e formas desenhadas e não quase nunca escritas.