domingo, 1 de dezembro de 2013

Fafner

Paula Rego Sit 1994
Entre os dedos do pé, a massa escura e adstringente formaria a proteção que sua mãe tanto lhe pedira. Após uma derrota em partida de bilhar, teve que deixar os sapatos na aposta e caminhar pela noite. O sol iria atrapalhar a leitura dos pequenos mapas desenhados na contracapa do livro que carregava.

Ainda sem o chapéu, repetia versos daquele poeta irlandês. E com os olhos na porta, ia se afastando até tocar levemente a aba límpida e seguir. As mãos eram o trabalho e eram também todo o trabalho. O café da manhã foi preenchido com geleia de tomates verdes e laranjas.

Sentia cada um dos odores daquele quase nascer do sol. Sabia que a totalidade de seres impregnava-se do mesmo perfume, mas suas músicas tinham efeitos abissalmente distintos.  Em passos ritmados, olhava as pequenas floreiras nas janelas e imaginava suas notas e acordes.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

atlântico

Gino Severini 1959 The Pan Pan at the Monaco
Daqueles imensos limites da pátria eram escolhidas as sequências de espelhos. Uma alma arejada e pouco fanática fazia luz sobre sogras, aluguéis e agiotas. Qualquer textura concedia certo filistinismo ao emaranhado de retas. A música que ninguém ouvia imprimia escala blue com o terceiro e o sétimo abemolados.

O olhar curvo sobre o café lembrava os poucos dias de sol na costa do norte. Algo entre uma estação de trem vazia e todos os comprimidos para dor de cabeça que esquecera. As refeições em pratos de louça e o punho da camisa que servira de guardanapo. O letreiro dizia “chá dançante”.

Reuniam-se. E iam contando as páginas a partir do fim. Vestiam-se de contos e poemas. Secos e úmidos eram os parcos regramentos que escreveram. O fogo se encarregava dos gestos e suas sombras recuavam em danças. Convencidos de suas belezas, não pulavam: fingiam-se sapos apenas quando viam-se refletidos.




quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Thai Binh

Balthus La Rue 1933
Quando a família se encontrava no circo, os arrulhos pareciam apenas uma distante ópera de Mysliveček. Os mais velhos pensavam que ao sentar nas proximidades do picadeiro estariam voltando à juventude. Jamais saíram dela. Todos embalsamados em laivos de tristeza. Talvez fossem os ovos mexidos do café da manhã.

As sequências de atores pouco razoáveis, imundos, atrozes e absurdos. Os esguichos dos óculos dos palhaços sempre apontavam ao mais puro recalque de algum ossian. Seguindo as leis das falsificações, por hábito – utilizavam aquilo que conheciam. Uma continuação anterior a todos os presentes.

Qualquer um sabia que o mais escasso vento era um completo vazio insaciável da morte. Eram intervalos harmônicos. Uma imobilidade imposta e forçada. Uma mímica que simplificava o real. Lembro-me das mãos no ar e da pele fresca em panos mornos daqueles que faziam todos o trajeto no imperial.

sábado, 14 de setembro de 2013

alabama

Na sala de espera, um quadro comprado em um hipermercado. Daqueles que o consumo de massa oferta. Dois ou três minutos em respiração tranquila e as músicas se repetiam. Uma valsa, nada brilhante. Talvez até mesmo durante a noite e a madrugada; as notas incessantes. Cortantes.

Seu vaso de Rubin. Enquanto pulava em um pé só, suas cores e olfatos eram como o contato do chá com lábios. Chão – no chão, sentara. Assim, viam-se as formas e os ventos em formação. O som da árida chuva. Talvez o seu segundo tenente do décimo quinto batalhão do regimento do rei estivesse por perto.

Falemos sobre lordes e duquesas. Em dez de outubro de trinta e nove. Todos usavam (ou se banharam em) o mesmo perfume. Esparsos ficavam em trilhas que foram se abrindo ao caminhar sobre a neve. Eram visíveis as sombras, as luas e os seres famintos perpetuados durante a morte.

sábado, 24 de agosto de 2013

idéias gerais

Bill Brandt Window in Osborn Street 1931-35
De especialista em idéias gerais a fazedor de placas de nada, se passaram oito semanas e três luas. Deixara de escrever onze textos geniais e dois livros fantásticos. Também não conheceu pessoas encantadoras. De fácil identificação com anônimos, suas palavras eram bem aceitas entre as esquinas.

Seu estado de atenção era consciência alheia. Um usurpador metafísico que lia em voz alta e então usava uma moeda como marcador de páginas. As não lidas. Seus três nomes próprios ou primeiros nomes enalteciam suas contradições e faziam confundir o meio com o fim.

Esperava ser pobre para a vida. A sua. Daquelas realidades apagadas diariamente, se lembrava de passar o café e não as camisas. Proezas no enquadramento e deslocamentos rápidos. Só desafiava as leis do interesse. Suas harmonias com o mundo e o seu mundo paravam nas mãos dos criadores e consumidores.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Mesa de lixa móvel

Beta Kappa Louis Morris 1961
Nonada. Mesa móvel de lixa. Foi atrás de um pé e de uma mão. Os dois bancos em diagonais e à mesa dois pés e três mãos. A outra estava em alto e pedia um a mais. Dos restos de nada, havia uma certa consciência em diálogos de mão inglesa. Todos os lacônicos foram estimulados e os loquazes contidos.

Homens supérfluos em vrêmia sobre naturezas e verdades. Nas sublimes cidades premeditadas, ouviam-se os mais belos prazeres de uma dor de dente. Nas árvores de frutas, quando as subia, não se corrigiam as vontades humanas. Animais domésticos em seus processos de conseguir.

Na sua inércia consciente, passavam-se rios e canais. Seu comandante zero foram todas as tonalidades inquietantes. A sua memória tátil consistia em manipular o autômato. Em curto espaço e longo tempo, folgavam-se os nós do sapato e de mãos vazias e ficava preparado. E é tudo. Travessia.

sábado, 15 de junho de 2013

Necodá

Das Narrenschiff 1923 Oskar Laske
Havia um tecido. Havia um furo no tecido. E era por aquele pequeno que o vento soprava. O movimento foi contrário e inesperado sem qualquer dimensão definitiva. Era no meio que tudo começava e suas articulações iam se expandindo em direções fragmentadas. Apropriava-se e se alimentava.

O povo do caminho. Peso, tempo, espaço e fluência. E os escritos pouco definitivos eram as referências as quais se referiam. Padeciam de alguma memória e de todos os pensantes.Não mais além deles mesmos. Seus imaginários sociais eram ligar e desligar, mesmo que as ordens estivessem invertidas.

Só a nós mesmos é que uma surpresa faz sentido e faz surpreender. Àquelas liberdades em amostras e possibilidades, a ataraxia pisava em caminhos esparsos.  O pensar sem signos dobrava o presente. O futuro já não existe mais e o passado é imprevisível.

sábado, 8 de junho de 2013

Hashima

Vivian Maier
Sem data sem título
Tão perto. Comemoração. Quando pisávamos na grama e nos fartávamos de sorrisos e abraços. Seus pequenos círculos de passos largos e frios. Qualquer temperatura que fosse recordável. Sim, atenção depois de certa idade. Porque, aos pequenos em idade, a alfabetização fundia-se com os primeiros amores.

Ontem quando voltava do trabalho. Música e saudades. Rostos em alguns pensamentos polifásicos.  Certos naquela abertura às teorias não provadas. Um ganha pão. Mágica com as mãos. Truques em solos de guitarra. Lembro-me do chão em lajotas vermelhas. A timidez me recolhia à altura dos olhos.

Quão perverso era aquele lento veneno da indiferença? Queria apagar o texto e reescrevê-lo, entretanto, pois então, entre tantos, muitos de então. Pôs se a olhar. Restavam suas fitas em aleivosias. Espremia suas idéias em paráfrases, quase dobradiças.  Não me dirijo à sensibilidade de cada um. Amo-te.

sábado, 25 de maio de 2013

kraanerg

Os homens sem mundo e os seus feijões do divino. Dizia que iria chover. Choveu. Sadismos durante todas as consciências: opressoras ou não. Ratos no chão, certo odor de feira, já no final. Quando o meio dia chegar, saberemos que o seu começo foi ontem. Receita na mão. Tarjas pretas, vermelhas e amarelas.

Seres inacabados. Em extensões e durações. Tempo no espaço de tempo. Àquele contado em tiras de couro, o véu em lama de saibro. Corre-se ao luar. E é isso o que se tem tempo a fazer: dividir, contar – ou em seu espelho, a alma não aferida e pouco visível. Talvez seja seu próprio contorno que a defina, ou definam-se.

Homens sem mundo. Dez minutos atrás de uma ideia. Quando coagular qualquer coisa, estará pronto. Futuros em tempos de verbo, o passado mais que perfeito; e o presente se foi. Feito. Qualquer sucessão de estados de consciência. Duração. Extensão. E quando no frio, solidifica-se.

sábado, 11 de maio de 2013

Xícara

A repetição incansável da cena da xícara. Quando caia, fazia-se em pedaços. Diferentes ao toque e ao chão. Diferentes chãos e toques. Alguns diriam que ainda havia conteúdo, enquanto os mais otimistas apenas olhavam sob o sol. Um pequeno simulacro, algo emitido pelo objeto e suas sombras.

Um interesse humano, não imediato, ardoroso. Mesa do jantar posta. Água, suco, e postres. Faltavam molduras aos desenhos em preto e branco. Seus papéis em tom de pele, meio desejo em meio querer. Segundas-feiras eram dias de descanso.  Nem mesmo o aquecedor na sala era suficiente. Suficiente.

Aqueles que criavam, a consumiam. Surpresa, raridade e trajeto. Expandia-se com sutileza e ardor.  Sempre atrás das cenas. Suas cenas. Cenava, acenava.  A identificação dos operadores e espectadores era feita por ordem alfabética: com o mesmo método dos tufões, furacões, ciclones e noemas.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Sobre tudo que não importa

Sobre tudo que não importa. Sobe tudo que não importa. Sobre o que importa. Só o que importa. Sobretudo. Sobe tudo. Uma ponta de cinco pontas e um semicírculo no cume. Madeira de lei em selva de pedra. Ainda deslizava. Cabelo, cor, livro e caixa.Duas cartas, um velho disco e meio sorriso.

Acrílico de nós. Violeta e chá mate. Algumas luzes quentes para se aproximarem. Não via os botões e suas casas. Quando deixou a camisa sem passar, foi ao varal e recolheu seus braços. Por dia de inventário ganhava em dobro, mas gastava tudo em subidas. Casaco na mão, ombros ao vento e uma grande fome.

Tudo é dinheiro. Tudo o que é, é mais dinheiro. Repetia. De ano. Tudo mais dinheiro é o que o dinheiro é. Sem dinheiro. Com dinheiro. Partindo alto de samba. Doze meninos em carnaval. Quatro noites no teatro. O resto é gim tônica com gelo. Sob tudo que não importa.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Barba

As melhores idéias eram aniquiladas quando ela fazia a barba.  Seu paladar consistia em duas doses de ar e uma exalada pela boca. Entre os dentes que faltavam, sua melhor tacada foi lançar diversos caroços de azeitonas. Esporte, que reconhecido pelos céus, lhe deu a décima primeira coorte em comando.

Saltos nos dois pés. Pijamas e o seu método de conduzir as vogais em trânsito com as consoantes.  Ao que importar e estocar: as caixas dispensadas em pilhas, previamente, marcadas no chão. Fita crepe e alguma cola branca. Enquanto os primeiros cortes aconteciam, os ataques de asma começaram.

Uma garota do vale. Recheada de comunistas inconsequentes e capitalistas financistas. Talvez fosse uma garota de vida diária vazia e agitada. Celebrava todas as suas refeições. Mesmo sem mesa ou cabo no guarda-chuva.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Títere

Portanto, só os pômulos são eternos. Em uma tradução de si mesmo, elencou suas vidas e os poucos ventos que sentiu. Aos primeiros, lá onde o Sol se cala, foram estrábicos. Depois, quem diria, um louco de juízo. Plágios e plágios. Moveu-se então.

Em sua pequena criação de viscachas fazia seu sustento. Criaturas adoráveis e muito apreciadas ao norte. Eram de fácil manejo e difícil sabedoria. Reunidas em poucos metros e cercadas em quadrados de lados desproporcionais reinavam durante noventa e um dias. Então, suas peles seguiam a qualquer prócer que pagasse mais.

Em dias de sal e saliva, sem memória ou futuro, fez-se personagem e autor. Perto das suas entranhas, aquelas que misturadas aos seus consensos e seus medos, chovia incessantemente granizo. Cortes de divina: explicar é descrer.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Fitzgerald's boots

Ao sul do rio Bravo, entre três mesetas e dois páramos, se podia ver as esquálidas faldas que condicionavam os olhares para a entrada da cidade. Suas artérias secas eram feitas de pedregulhos lapidados pela água e desgastados pelos passos apressados. Filas de mulas e burros, alguns carregadores e diversos famintos revestiam os acessos.

Na terra dos régulos, ladinos eram poucos. Fez-se alguma absolvição aos olhos dos menos afortunados e dos menores em idade. Aqueles poucos anões de pernas curtas e imensos ventres tocavam banjo para que os visitantes sorrissem e não mostrassem seus alforjes, assim em primeiro contato.

Eram raras as manhãs de domingo. Em geral, sacudiam até às duas da manhã de sábado e pela lei natural dos encontros outorgava-se à segunda-feira dois dias em uma semana. Prática corrente inventada pelo portador daquele diminuto pincenê. Antes, tivera seu crânio acariciado por um trépano. Ou coisa que o valha.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Legumes

Os dias eram feitos para que os legumes descansassem fora da geladeira e na manhã seguinte estivessem prontos o suficiente ao consumo. Seu predileto era o suco de melancia; que no copo de louça branca e tomado em grandes goles, adoçado com melado e quase sempre com três cubos de gelo.

As cores em movimento devoravam sua paciência e todas as tentativas de alcançar a bola da maçaneta. Sentado, observava os peregrinos pela janela. A cidade, que mudara de nome em homenagem ao santo, fora construída sobre íngremes ladeiras. Pavimento de pedras e durante o período de chuvas, as enxurradas levavam todos à igreja.

Ao desabotoar a camisa, a distante oligofrenia causava dor. Sentida pelos braços finos e imberbes. Saltava ao alpendre e na ponta dos pés, caçava além da sua miopia e dos seus cem anos que nunca teve aquelas réplicas em cera.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

semponto

alpaca almirante amora baldeação bastidor buzina cachoeira caminho convés dado drácula deixe elevador escada etrusco feixe freio fécula gaita gole gueixa hábitos hálitos hélices ímpar ínterim inadiável já jó jiló lâmina lousa língua metro mítico monstro neve nome nau ovacionar otelo oitro poeira polichinelo prático qual quilha quanta réu ronronar relva sapo sereno sítio tatu trilha turma uva ultra ursa vaivém vertigem valsa xote xilogravura xogum zelda zoonose zelo

anis árvore ali bruma breu beliscão cítara corja camarão doído damasco dirão eustáquio eleito errante faqueiro fermento fumaça gata girassol glutão horário hominídeo haver inviável inútil inesperado joule jaula Jericó lento lógico lama mais mata mútuo novo ninfa nuvem ombro obra ontem proscênio paraninfo perdida quiabo quadra quorum rato ralhar reunir sonar sino solstício telúrico telha toada única úraco umidade vagem vontade vulto xamã xarope xavante zabumba zangar zíper

atônita adiar assíntota bitola beiço boa cru colina dente dádiva dão encontro etapa ebulição foca fuligem feno goiabada guerra gente homicídio holos hífen imoral indefensável ininterrupto jantar jovem jeca lágrima lontra leite meio mente mescla nave nota nitrogênio óleo orquídea obituário porta penúria placa quelônio química quebra rolar ralar reter sonho sádico selva trato teu tomilho um unidade ubu vinco velho veloz xícara xenófobo xisto zinco zarolho Zero


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Décima sinfonia

Acresce ao espaço, o tempo. Com ele, certa dose de paciência. O montar e desmontar dos relógios consistia seu ofício. Aprendera com os olhos dos sábios mais jovens; que aos dezessete anos já eram sérios. Habilidades: capitular as primeiras letras de cada parágrafo dando azo às formas necessárias.

Usava sapatos brancos e um casaco preto. Nunca ligou o televisor, embora os programas vespertinos fossem seus preferidos. Recordara das leituras diárias dos opúsculos: sete eram naquela época. Depois, fere-se o ar, espalha-se o vento e em cores mais amenas, perdem-se todos em cantos.

Suas paisagens eram preenchidas durante os pequenos encontros no corredor. O perfume doce e frutado lembrava suas descoleções. Refletia dentro de seu copo de plástico todas as sensações que a surdez havia esquecido.  Perguntas precárias, cubos de gelo e deslocamentos.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Dança dos opostos

A palavra em seu tom. Ou as palavras vociferadas. Algo que em outras línguas, talvez não significasse a complexidade. Certo que cada linguagem tem seu entendimento. E que falantes e escutantes travam seus duelos – entre eles mesmos e com as convenções que os cercam. Em se tratando da chuva, prefiro as orográficas.

O ritual durava cinco dias na semana, sempre pelas manhãs. Ao redor de alguma fogueira apagada pelo sono e pela vontade de pertencer. Aos olhos da esquálida garota, a discórdia. Aos olhos dos outros olhos, mais vinte minutos de luz. As coincidências foram sucumbidas em segundos posteriores.

 Foram poucos que esvaziaram seus cadernos. Tantos mais apenas começaram outras anotações. Canetas, lápis, apontadores, borrachas, papel carbono, grampeadores, clipes, pastas continuam a olhar para o céu.