quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Legumes

Os dias eram feitos para que os legumes descansassem fora da geladeira e na manhã seguinte estivessem prontos o suficiente ao consumo. Seu predileto era o suco de melancia; que no copo de louça branca e tomado em grandes goles, adoçado com melado e quase sempre com três cubos de gelo.

As cores em movimento devoravam sua paciência e todas as tentativas de alcançar a bola da maçaneta. Sentado, observava os peregrinos pela janela. A cidade, que mudara de nome em homenagem ao santo, fora construída sobre íngremes ladeiras. Pavimento de pedras e durante o período de chuvas, as enxurradas levavam todos à igreja.

Ao desabotoar a camisa, a distante oligofrenia causava dor. Sentida pelos braços finos e imberbes. Saltava ao alpendre e na ponta dos pés, caçava além da sua miopia e dos seus cem anos que nunca teve aquelas réplicas em cera.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

semponto

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Décima sinfonia

Acresce ao espaço, o tempo. Com ele, certa dose de paciência. O montar e desmontar dos relógios consistia seu ofício. Aprendera com os olhos dos sábios mais jovens; que aos dezessete anos já eram sérios. Habilidades: capitular as primeiras letras de cada parágrafo dando azo às formas necessárias.

Usava sapatos brancos e um casaco preto. Nunca ligou o televisor, embora os programas vespertinos fossem seus preferidos. Recordara das leituras diárias dos opúsculos: sete eram naquela época. Depois, fere-se o ar, espalha-se o vento e em cores mais amenas, perdem-se todos em cantos.

Suas paisagens eram preenchidas durante os pequenos encontros no corredor. O perfume doce e frutado lembrava suas descoleções. Refletia dentro de seu copo de plástico todas as sensações que a surdez havia esquecido.  Perguntas precárias, cubos de gelo e deslocamentos.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Dança dos opostos

A palavra em seu tom. Ou as palavras vociferadas. Algo que em outras línguas, talvez não significasse a complexidade. Certo que cada linguagem tem seu entendimento. E que falantes e escutantes travam seus duelos – entre eles mesmos e com as convenções que os cercam. Em se tratando da chuva, prefiro as orográficas.

O ritual durava cinco dias na semana, sempre pelas manhãs. Ao redor de alguma fogueira apagada pelo sono e pela vontade de pertencer. Aos olhos da esquálida garota, a discórdia. Aos olhos dos outros olhos, mais vinte minutos de luz. As coincidências foram sucumbidas em segundos posteriores.

 Foram poucos que esvaziaram seus cadernos. Tantos mais apenas começaram outras anotações. Canetas, lápis, apontadores, borrachas, papel carbono, grampeadores, clipes, pastas continuam a olhar para o céu.