domingo, 1 de dezembro de 2013

Fafner

Paula Rego Sit 1994
Entre os dedos do pé, a massa escura e adstringente formaria a proteção que sua mãe tanto lhe pedira. Após uma derrota em partida de bilhar, teve que deixar os sapatos na aposta e caminhar pela noite. O sol iria atrapalhar a leitura dos pequenos mapas desenhados na contracapa do livro que carregava.

Ainda sem o chapéu, repetia versos daquele poeta irlandês. E com os olhos na porta, ia se afastando até tocar levemente a aba límpida e seguir. As mãos eram o trabalho e eram também todo o trabalho. O café da manhã foi preenchido com geleia de tomates verdes e laranjas.

Sentia cada um dos odores daquele quase nascer do sol. Sabia que a totalidade de seres impregnava-se do mesmo perfume, mas suas músicas tinham efeitos abissalmente distintos.  Em passos ritmados, olhava as pequenas floreiras nas janelas e imaginava suas notas e acordes.