terça-feira, 28 de outubro de 2014

point blank

Everett Shinn
Strong Man, Clown and Dancer, 1906
25,2 x 19,9 cm Óleo sobre tela
The Pennsylvania Academy of the Fine Arts
Era muito real para mim, até eu conhecê-lo. As árvores passavam sobre nós e pelo para-brisa, víamos a rua. Os óculos vestiam a todos e suas hastes escorregavam em nossos cafunés.  Dormíamos com os sapatos amarrados. Teimosamente íamos ao sol pela manhã e em nossos pensamentos, a um infinito de canções.

Nos dias mais frios, gostávamos de almoçar tarde e ficar olhando os esmaltes nos dedos mais finos. Em algumas cores, podíamos refazer os gestos de pintar. Embora fossem as texturas e seus reflexos que nos faziam deixar as cadeiras sempre junto com o último café. Numa quase noite dessas nos desencontramos.

Porque o céu é azul. Porque dançar é o que temos. Porque os caminhos são nossos. Porque os sorrisos estão sempre. Porque os sonetos são belos. Porque as escolhas mudam. Porque as estações passam. Porque os dias são de luta. Porque com pedaços de mim eu monto um ser atônito.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

You got me dancin' in the sun ou Step up for the cool cats

Gabriele Münter
Self Portrait, 1908
Óleo sobre cartão, 49cm x 33,6 cm
Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid, Espanha
Quero um nariz que fale
 
Uma boca que olhe
 
Mãos nos seus sorrisos
 
Paladar nos ventos
 
Sobrancelhas de delicadeza
 
Um ouvido para os seus cafunés
 
E seguramente nada a saber.

sábado, 11 de outubro de 2014

queue

Ed Ruscha
OOF
1962 (retrabalhado em 1963)
Óleo sobre tela
181,5cm x 170,2cm
Museum of Modern Art, New York City, EUA
Qualquer  flama verde no meio da sala era a diversão. E por sorte, foi também a única canção que cantávamos juntos. Para mim, um remoto no assunto, aquelas expressões de pouca comunicação consistiam em uma espécie de memória. Mesmo quando as tentativas de sorrir eram-me escassas.

Havia uma dedicação proposital em dizer ou mesmo pouco dizer em tempos compostos. A leitura em voz alta nos revelava apreensão e beleza. Alguns conviveram com lágrimas e outros com os lenços de papel. Até que acabaram. E então, automaticamente, eram repostos pela insistência em dobrar-se à esquerda.

Meto-me em lençóis. Em toalhas brancas. Em travesseiros macios. Pouco descanso. Visto-me como um narrador em segunda pessoa. Caminho sempre com meias. Resto-me aos muros e àquela água que o encobre. Faltam-me o vento, mas não faltam-me os amigos.



domingo, 5 de outubro de 2014

tips

Jack Beal
Random Walk 1964
Óleo sobre tela
201,9cm x 203,2cm
Queremos narrar história alguma. Nada que possa conter olfato ou tato. Fazemos nossas palavras com os cascos dos navios e por amor a esta narrativa que nos parece digna de ser lida. É de sensatez apurada o que desejamos contar é algo que não acontece todos os dias e nem a qualquer um.

Quando se entrava no restaurante era curioso a quantidade de mesas ausentes e uma presumível falta de apetite. Parece-nos que as vontades eram esmiuçadas em pensamentos mais distantes; dos presentes, restauram dois charcos e uma náiade. Recusaram-nos por portamos muitos brincos.

E depois da noite infinita e de um conforto frágil, podemos nos render os pequenos prazeres. Um tédio instável e doce fazia-nos acompanhar durante o depois do dia. Amávamos os deuses alheios e estes perfuravam lábios suaves. Diga, o que você viu?