sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sem meias

Meredith Frampton - Marguerite Kelsey - 1928
Óleo sobre tela - 131,6 x 141,2 cm 
Tate Gallery - London - UK

Gosto de lavar o rosto antes de dormir. É a água; parece que ao deitar me sinto um pouco mais limpo. Ao menos respeitava os semáforos. Pedestre mesmo. Porque têm muitos apressados que insistem em competir com seres de rodas ímpares. Minha meta consistia em carimbar a folha dobrada todos os meses. Foram muitos.

Quase sempre ia de comercial; duas ou três vezes por mês, seria o especial: aquele com farofa de ovos como acompanhamento. E tudo se passava numa esquina atrás da Paulista, pro lado Centro - o único que existe. Ao balcão, não havia qualquer diálogo, exceto o pedido pelo número e o obrigado depois ao caixa.

A descrição do almoço dobrava-se como um lintel, de modo que ao se encaixar com os tijolos da memória formasse uma vasta e resistente parede repleta de fotos emolduradas. É isso que escrevo: uma repetida maré de visões pouco acabadas vibrando em amplitudes infinitas.