sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

dança

Yoko Ono (1933-) - Ceiling painting (Yes painting) - 1966 - texto sobre papel - vidro, metal e escada. Coleção particular
Havia uma rosa pendurada na parede. Um prego a prendia. Foi roubada de um túmulo de cantor desconhecido. Uma clarineta, uma agudez e em seguida; graves de baixo, bateria e sopros. Algum teclado para dar volume. Afinal, quem não gosta de volume. Apago do canto a palavra de três letras. Ticket do ride.

Tudo vai mudar. Tudo será cortado. Medido. Datado. Vincado. Vestido. Vês-tudo. A vez que tudo viu. A gravata da borboleta. O céu da estrela. O sorriso com lábios. Verde. Algo que se estava em vários lugares e ao mesmo tempo eram os lugares que se expandiam ao colocarmos os braços às costas da cadeira.

Uma flanela, uma lanterna, chiclete. Água sem gelo. Presentes intactos repletos de saudade. Coisas. Prelúdio. Dança. Parede. O vértice que escrevemos palavras curtas em parágrafos longos. Quase estrofes. Quase teto.



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

entre o rap e o yoga (Guta me look mi look love me)

Paul Klee - Around the Fish - 1926
óleo e têmpera sobre papel cartão
46,7cm x 63,8cm
The Museum of Modern Art - MoMA
Nova Iorque - NY - EUA
é a noite que as findas velas aparecem. sim, quando nos ouvimos – umas às outras. quero que os jantares sejam como feiras de livros: sem dublês. uma avenida de permanência, passamos em lados opostos. alguma informação na rua, vento.

visto a calça de ontem. porque se colocássemos sabão não poderíamos almoçar hoje. pandeiro de primeira – bicicleta à escola. volta ao sol. meio dia. mãos. madeixas. mas deixa que eu falo. conheço.

um vidro por trás. acerto no z. o último. faço parte de nada e de nada vou. voo, pego a mala de mão com a mão. por último. saio do avião; vuu sem acento. caio, levanto, flutuo. água.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Sobre o futebol

Luiz Braga (1956-) - Futebol na praia - 1988 - Fotografia
A história é falar com as partes do todo. Olhar nas suas estrias. Ao menos por sete minutos seguidos. Ver com as mãos do outro, da outra, dx outrx. Sem hierarquia. Com maestria. Perder-se em possibilidades, probabilidades, sorteio em jogos do acaso. Uma peça sem palco, com leitores olhando a atriz à luz que rebate às íris alheias e que se desfazem em crases bem postas e eficazes.

Talvez a meia-lua de espaço nas linhas brancas da grande área ou a jogada de correr mais com o pé à frente. Uma medição em metros. Tomei o drible, me perdi. Circulei e cantei vogais até que não estava no círculo. Saio, volto e piso na grama. Despiso a grama. Piso o des da grama. Da grama, do grama que não levo e deixo em todas as pegadas desfeitas depois e antes do encanto.

Amarro-me aos meus corpos. Deixo-os nos outros. Vejo a direção que me olha, aquela que não me vê, mas sente. Aquela que sente e vê aos poucos, à medida que abre-se a vista à chave.
Pé. Pé. Pé. Fico no gol. Móvel.






segunda-feira, 22 de agosto de 2016

vidros

espelho
inverno
brasília
16
Quebrei os copos de vidro. As vitrines e as lâmpadas da escada. Poderia ver agora. Franzi a testa e segui aos repetidos movimentos da água. Um caminhar pelos cotovelos, pelas fotografias e pelo som desenhado nas paredes. Um herói sem cavalo e sem história. Eram tardes que ficavam até o outro dia e não terminavam.

A duração das fomes me parecia quase sempre aumentada pelo recorte que se fez dos olhos: como se colássemos as bocas e os narizes uns nos outros e assim repetíssemos rostos desconhecidos e memórias inéditas. Havia também a fila do chuveiro. Sabão e certa distância dos ombros.

Levo as mãos ao rosto. Repetidamente.


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

algo no lago ou sobre

João Almeida Neto - 2012
Pés - Berlim - fotografia
Um de uma fila de outros. Colunas classificadas em livros proto-germânicos. Ou pelo menos certo simulacro da língua. Maiúsculos e minúsculos; grades e repetições; num calendário de caleidoscópios cheios de tabelas periódicas. Uma a uma, dispostas em desigualdades, um sorriso, uma mesa, dois meses em pentes de cabelo.

Cafés, portas, bolos, manteiga. Acordar em pés deitados com horizonte azul. Parece que os mares e os céus estavam em supermercados, decididamente alinhados à revelação; faziam filmes em trinta e poucas unidades de medida. Duas canetas de pontas diferentes – vinheta de abertura e encerramento: no meio da rua, a brilhar.

Tudo que enferruja pode-se dizer que é desejo contínuo. Ao ar em contato com as vidas das pequenezas das partículas é que sabemos das nossas inexistências. São muitas – quando atravesso os compassos e as ruas, vejo que tenho ouvidos e bocas e que não me pertencem, digo, não são ou estão em quem se vê. Uma rapsódia de plástico bolha.


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Autocrítica do clichê ou phony phone call

Águas pluviais
Fotografia
João Almeida Neto
2016
Um tapete foi furtado. Uma casa grande para duas ou três pessoas. Sim, barbas aos montes – bem aparadas, hidratadas, fotografadas e instagraneadas. Uma ligação, um trote, uma música – um folkinho escolhido pelo aplicativo de caça-palavras-que-funciona-bem-só-no-vifí. Depois, assoviam a melodia em ritmo “Young folks”. Muito povo aqui, acho que devo sair do parágrafo.

Havia a praia também. Pouco sol, mas a areia seria capaz de prover a luminosidade necessária. Três ou quatro segundos para uma pose de refinamento e de seguidas adorações. Bom, se há consumo, estamos bem. Ou estaríamos bem. Certa tendência a usar a primeira do plural para os casos mais espinhosos e a primeira do singular, para, digamos, tornar única a experiência. Pensemos sobre espaço e tempo, juntas.

Chegamos ao restaurante, era sábado à noite. Carro, do ano, com o manobrista – há quem fale manobreiro. Saltos, gravatas, perfumes, pães péssimos com manteiga pior. Pagamos caro, afinal, somos endinheirados e cheios de academias. Laquê, cabelo acaju, anel no mindinho, dourado, muito dourado. Carpete, ar-condicionado, shantung, mais dourado. Canhota, mão esquerda, gauche.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Oneth

Arshile Gorky (1904-1948)
Diary of a Seducer - 1945
Óleo sobre tela - 126,7cm x 157,5cm
Museu de Arte Moderna - MoMA
Nova Iorque - NY - EUA
Guardo casacos. Cada um em um respectivo compartimento e chave ao seus dedos. Consigo imaginar todos os caimentos em dia de neve. Tenho me acostumado a andar ao balcão e a ser um tanto quanto leva-e-traz, um literato da teia que meus colegas renovam cotidianamente. Número 33, senhora, obrigado.

Guardo o meu casaco. O único que tenho. Um cabide de madeira e o gancho na porta, digo, atrás dela. Faz frio e espero que alguém esqueça um bom sobretudo de lã e assim, depois de trinta dias, fazemos um sorteio, e claro, vou ser o elegante da vez. Dois invernos passados foi o subchefe que achou dois ingressos para a ópera em um paletó de chantum.

Casacos guardados. Todos se acomodaram. Palmas. Primeiro movimento. Solo. Aplausos. Passos intermitentes. Jovem senhor sai apressado. Senhor jovem sai mais apressado. Uma dama vai ao toilette. Volta apressada. Acena. Conto os vazios - oito. Volto ao ouvido alheio com mais atenção.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Éris

José Gurvich (1927-1974)
Formas Símbolos e Imágenes - 1967
Óleo sobre tela - 58cm x 78cm
Museu Gurvich - Montevideo - Uruguai
Vou dividir as castanhas durante o café, e com o café. Além de versos, depois vejo-lha. Um dândi por militância, um (anti) estético com lastro na mesa. O que se vê não lhe (a)(o) basta: não vos ergais nunca! Era um amanuense que me recebia com uma saudação manhã-cedo. Seu cachecol zarcão era o único motivo do frege.

E havia pão também. Com casca cortante. Sempre uma impossibilidade de encontro. Lépido e com letras feias/bonitas. Uma filosofia da desconfiança e uma passo de fox-trot. Minha atitude foi compraz, digna e suspeita. Um deserto de com alguma sensação de umidade e o tempo andando. Uma acídia.

Quero o lugar de não ouvir, uma memória de sensações, um saber plástico. Devir de lembranças e metamorfoses entrelaçadas - ser apotropaico. Uma semana inacabável, um recheio de nome falsos e uma piscina de bolas coloridas e de plástico. Formando-se limites e tocando-se os extremos (pronome reflexivo vai ficar).

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Hipster-baru

Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901)
Femme à sa toilette (1896)
Óleo sobre tela - 67cm x 54cm
Museu d'Orsay - Paris - França
Leio cartas em voz alta, dentro de casa. Na rua, eu as recolho. Eu as encontro no meio do caminho entre a casa e o trabalho. Trajeto dos dias inúteis. Repetidos em consonância com a minha pouca disposição ao dias de sol forte e brilhantes. Todas as imagens excedem as realidade: coletiva, individuais e individuais-coletivas.

Como se a rotina do futuro fosse acostumada ao silêncio das coisas. Tenho um objeto simples e que se colocado em um canto ou de ponta-cabeça assume traços da memória do leiteiro. São ratos que saem do assoalho de madeira e por vezes mordiscam a ponta do meu dedão. Certo que vão arrancar as peles mais externas, apenas os deixo e fecho os olhos.

Tenho imaginação obsoleta. Preocupo-me com as respostas na fila do ônibus e não com as perguntas que deixei de fazer quando andávamos de bicicleta e depois dividíamos um ou dois sorrisos. A todos campeões em tudo, os meus sinceros e esquartejados ombros, aos dinamismos próprios, um aceno e a terra que cobre meus olhos.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

céu do outro

Claude Monet (1840-1926)
Saint-Georges-Majeur au crépuscule
1908 - óleo sobre tela - 65,2cm x 92,4cm
National Museum Cardiff - Cardiff
País de Gales - Reino Unido
Porão
Os pequenos ritmos daquela vida começavam com duas xícaras de café. Quatro torradas com manteiga e onze minutos no chuveiro. Entendia uma música entre abrir a porta do quarto e os três degraus do corredor. Ainda com calcanhares no chão de madeira e as mãos tocando as paredes, na verdade, os dedos indicadores.

Rés-do-chão
Nos cantos eram todos os encontros. Imaginava que folhas cantantes desciam das árvores e flutuavam até o meu pé. Assim, depois de olhar pela janela, lia cartas em voz alta. Acho que falavam de música. O silêncio das coisas simples me convencia que os meus pequenos dedos do pé não estavam feridos.

Sótão
Um movimento de sol e aquelas imagens me diziam que o excesso de realidade poderia deixar meu devaneio mais lúcido. Porque foi aquela única sagacidade que fora testemunha da memória. Como se a chuva batesse nas delicadas peles dos cogumelos e cada gota reverberasse por todo seu interior.