sábado, 30 de janeiro de 2016

Éris

José Gurvich (1927-1974)
Formas Símbolos e Imágenes - 1967
Óleo sobre tela - 58cm x 78cm
Museu Gurvich - Montevideo - Uruguai
Vou dividir as castanhas durante o café, e com o café. Além de versos, depois vejo-lha. Um dândi por militância, um (anti) estético com lastro na mesa. O que se vê não lhe (a)(o) basta: não vos ergais nunca! Era um amanuense que me recebia com uma saudação manhã-cedo. Seu cachecol zarcão era o único motivo do frege.

E havia pão também. Com casca cortante. Sempre uma impossibilidade de encontro. Lépido e com letras feias/bonitas. Uma filosofia da desconfiança e uma passo de fox-trot. Minha atitude foi compraz, digna e suspeita. Um deserto de com alguma sensação de umidade e o tempo andando. Uma acídia.

Quero o lugar de não ouvir, uma memória de sensações, um saber plástico. Devir de lembranças e metamorfoses entrelaçadas - ser apotropaico. Uma semana inacabável, um recheio de nome falsos e uma piscina de bolas coloridas e de plástico. Formando-se limites e tocando-se os extremos (pronome reflexivo vai ficar).

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Hipster-baru

Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901)
Femme à sa toilette (1896)
Óleo sobre tela - 67cm x 54cm
Museu d'Orsay - Paris - França
Leio cartas em voz alta, dentro de casa. Na rua, eu as recolho. Eu as encontro no meio do caminho entre a casa e o trabalho. Trajeto dos dias inúteis. Repetidos em consonância com a minha pouca disposição ao dias de sol forte e brilhantes. Todas as imagens excedem as realidade: coletiva, individuais e individuais-coletivas.

Como se a rotina do futuro fosse acostumada ao silêncio das coisas. Tenho um objeto simples e que se colocado em um canto ou de ponta-cabeça assume traços da memória do leiteiro. São ratos que saem do assoalho de madeira e por vezes mordiscam a ponta do meu dedão. Certo que vão arrancar as peles mais externas, apenas os deixo e fecho os olhos.

Tenho imaginação obsoleta. Preocupo-me com as respostas na fila do ônibus e não com as perguntas que deixei de fazer quando andávamos de bicicleta e depois dividíamos um ou dois sorrisos. A todos campeões em tudo, os meus sinceros e esquartejados ombros, aos dinamismos próprios, um aceno e a terra que cobre meus olhos.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

céu do outro

Claude Monet (1840-1926)
Saint-Georges-Majeur au crépuscule
1908 - óleo sobre tela - 65,2cm x 92,4cm
National Museum Cardiff - Cardiff
País de Gales - Reino Unido
Porão
Os pequenos ritmos daquela vida começavam com duas xícaras de café. Quatro torradas com manteiga e onze minutos no chuveiro. Entendia uma música entre abrir a porta do quarto e os três degraus do corredor. Ainda com calcanhares no chão de madeira e as mãos tocando as paredes, na verdade, os dedos indicadores.

Rés-do-chão
Nos cantos eram todos os encontros. Imaginava que folhas cantantes desciam das árvores e flutuavam até o meu pé. Assim, depois de olhar pela janela, lia cartas em voz alta. Acho que falavam de música. O silêncio das coisas simples me convencia que os meus pequenos dedos do pé não estavam feridos.

Sótão
Um movimento de sol e aquelas imagens me diziam que o excesso de realidade poderia deixar meu devaneio mais lúcido. Porque foi aquela única sagacidade que fora testemunha da memória. Como se a chuva batesse nas delicadas peles dos cogumelos e cada gota reverberasse por todo seu interior.