segunda-feira, 22 de agosto de 2016

vidros

espelho
inverno
brasília
16
Quebrei os copos de vidro. As vitrines e as lâmpadas da escada. Poderia ver agora. Franzi a testa e segui aos repetidos movimentos da água. Um caminhar pelos cotovelos, pelas fotografias e pelo som desenhado nas paredes. Um herói sem cavalo e sem história. Eram tardes que ficavam até o outro dia e não terminavam.

A duração das fomes me parecia quase sempre aumentada pelo recorte que se fez dos olhos: como se colássemos as bocas e os narizes uns nos outros e assim repetíssemos rostos desconhecidos e memórias inéditas. Havia também a fila do chuveiro. Sabão e certa distância dos ombros.

Levo as mãos ao rosto. Repetidamente.


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

algo no lago ou sobre

João Almeida Neto - 2012
Pés - Berlim - fotografia
Um de uma fila de outros. Colunas classificadas em livros proto-germânicos. Ou pelo menos certo simulacro da língua. Maiúsculos e minúsculos; grades e repetições; num calendário de caleidoscópios cheios de tabelas periódicas. Uma a uma, dispostas em desigualdades, um sorriso, uma mesa, dois meses em pentes de cabelo.

Cafés, portas, bolos, manteiga. Acordar em pés deitados com horizonte azul. Parece que os mares e os céus estavam em supermercados, decididamente alinhados à revelação; faziam filmes em trinta e poucas unidades de medida. Duas canetas de pontas diferentes – vinheta de abertura e encerramento: no meio da rua, a brilhar.

Tudo que enferruja pode-se dizer que é desejo contínuo. Ao ar em contato com as vidas das pequenezas das partículas é que sabemos das nossas inexistências. São muitas – quando atravesso os compassos e as ruas, vejo que tenho ouvidos e bocas e que não me pertencem, digo, não são ou estão em quem se vê. Uma rapsódia de plástico bolha.