quinta-feira, 26 de outubro de 2017

piada


José Correia de Lima (1814-1857)
Retrato do marinheiro Simão, o Carvoeiro (1853)
óleo sobre tela - 92,5cm x 72,3cm
Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro (RJ) - Brasil

Há como rir para uma piada? Coloco uma meia na cabeça. Ela esbarra na testa. Corro ao carro com o casaco. Faz frio. Vejo a cortina em meio-vidro. Penso que se deva ser assim. Azul e branco como um desfile à noite em fevereiro. Do chá não bebo. Predicativo do objeto. Solto a voz.


Três potes. Café, almoço e jantar. Pretendo não dormir até não se consumar o tempo. Uma fita rodava por trinta minutos e era o tempo que se levava até sonhar. Havia uma medida que era conhecida. Faz-se então, em rede nacional, a onde se sentava com as pernas em qualquer móvel de imbuia.

É isso. Algo que não acontece. Que não se pensa, e nem se preze ou se prense. Duas janelas entraram bem ao anoitecer; trouxeram a galheta. Vidro-inteiro e aço. Destes dedos que te escrevem ao seus olhos que me refletem.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

sozi36

João Almeida Neto - 2010
East Side Gallery - Berlim

O que me importa é não estar vencido. Desço uma rua, carrinho de rolimã. Freio é o improviso. Quando acaba, só temos o que está nos pés. Curto caminho até os montes de livros. A esquina era o lugar preferido – sentava ao lado do gradil curvo e baixo. O pequeno muro que separava a invisibilidade e os sonhos.

Claro, a rua. Meio-fio. Fins das tardes. À noite, me lembro do sono, vento deslizante; uma janela entre-aberta-fechada. Um cachorro, dois cachorros. Foram. O clube, just-in-time. Acomodado entre as linhas antes das arquibancadas. Um gol, dois góis. Pênalti. Ainda que tivesse joelheiras e cotoveleiras, o samba seguia.

O contato com a água. A terra não se via. Mas sabia-se que estava e era. Algumas memórias para se fazer um espaço-tempo de existências. Trams, trens, metrôs, bicicletas, trenós, neve, asfalto, pedra, ar, e um degrau que se esfarela.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Casa

João Almeida Neto - 2016 - Sem título - Fotografia
Daqueles que iluminam uma parede. Era azul. Base pesada e lâmpada importada. Via-se quem estava mais ao fundo, no sofá. Uma janela que dava à rua e que podia se escutar as gargalhadas de um almoço de domingo. Prato único, suco de caju, sobremesa – às vezes a mais velha levava uns docinhos a mais, en plus – como ela dizia.

Havia quem reclamava da demora do banquete. Havia quem reclamava dos discos de vinil que tocavam até o café. Havia quem concordava mexendo a cabeça enquanto mastigava, para não ter que se desfazer de sabores. Pois, havia quem não lembrava do último aniversário e se desculpava na promessa de levar um presente ou compartilhar o primeiro pedaço de bolo.

Sentada. Sem mais poder andar. Olhava a cada uma das boas almas daquele lugar. Pedia, em silêncio, que todas ali se olhassem também. Sorria em gestos delicados e contínuos. Ao som da campainha, sabia que seria uma única e última vez a encontrar todas em tão boa música.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Ontem



Sem título – Fotografia – 20cm x 30cm
João Almeida Neto – 2012 –
Broadway Market – Londres – Reino Unido
Ontem, estive na feira. De orgânicos e inorgânicos. Feira da lata de metal. Das medidas que sempre vão além dos conteúdos ofertados. Uma dúzia de tomates e mais uns dois ou três, assim sobre os já escolhidos - empilhados nas cavidades que seus pares formam. Paga-se o mesmo pela quantidade e pelos extras.

Coloco na sacola de tecido. Lavei ontem mesmo, para deixar tudo pronto. Sou avesso aos acasos e aos achados. Levo nos ombros as duas alças vermelhas. Escuto outras tantas combinações de frações – três por dez, oito por cinco, meia melancia por seis abacates, - parto aos meios.

Já tenho as folhas. Já tenho as cascas. Já tenho os convivas. E vice-versa. Temos as receitas, as medidas, até as primeiras maneiras. Seguimos à mesa, à cozinha, às dobraduras que fazemos nos guardanapos.  Levamos nossas fomes, nossas vontades, nossos olhares e tudo o que nunca saberemos.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Rabo de pato


Sonia Delaunay (1885 –1979 - Ucrânia-França) - La prose du Transsibérien et de la Petite Jehanne de France - Ilustração para livro - aquarela estampada sobre papel - 200 x 35,6 cm - Princeton University Art Museum - Princeton - Nova Jérsey - EUA



Comecei a desenhar dedos. Dedões. Uma unha, um contorno levemente senoidal. Três linhas horizontais. Acompanha os traços exteriores. Ao modo imaginado, saímos com a forma desejada. Porque a forma é a duração das expectativas. Sentir os contornos, na verdade, vê-los. Faço em pretos e vermelhos. Mais em segundo tom. Corro às texturas. São elas que atravessam minhas fricções.

Eram de improviso e esboços. Entretanto, o tanto que eram não eram transitórias. Eram ou são definitivas. Ao momento que se tornam após a tinta já o são em para sempre. Este movimento em que saem das suas origens e receptáculos e então se transformam em outras cinturas, horizontes. Desço ao sub do solo, à placa de metal ao chão, à distante impressão analógica.

Depois, fiz narizes. Com um traço e duas sombras. Algo que motivasse um volume mais aparente. Vários e conquanto que dialogassem, estavam esperando a outra linha, ligações simultâneas. Rugas, aos olhos. Perto deles. Olho pra eles. Vejo. Penso, e - quase em assimilação - refiro-me aos seus brincos. Uma diversão na língua de bardo, a moderna. Isso, os olhos-rugas de tão quanto os quero.